Storia della bruttezza – Umberto Eco

“Dizer que belo e feio são relativos aos tempos e às culturas (ou até mesmo aos planetas) não significa, porém, que não se tentou desde sempre, vê-los como padrões definidos em relação a um modelo estável. Pode-se sugerir, também, como Nietzsche no Crepúsculo dos Ídolos que ‘no belo, o ser humano se coloca como medida de perfeição;’ ‘adora nele a si mesmo …(…) No fundo, o homem se espelha nas coisas, considera belo tudo o que lhe devolve a sua imagem (…) O feio é entendido como sinal e sintoma da degenerescência (…) Cada indício de esgotamento de peso, de senilidade, de cansaço, toda espécie de falta de liberdade, como a convulsão, a paralisia, sobretudo o cheiro, a cor, a forma da dissolução, da decomposição (…) tudo provoca a mesma reação: o juízo de valor ‘feio’.(…) O que odeia aí o ser humano? Não há dúvida: o declínio de seu tipo”.

“Identificamos, assim, três fenômenos diversos: o feio em si, o feio formal e a representação artística de ambos. O que devemos ter presente ao folhear as páginas deste livro é que, quase sempre, será possível inferir quais são, em determinada cultura, os dois primeiros tipos de feiúra com base apenas em testemunhos do terceiro do tipo.”

Storia della bruttezza
Storia della bruttezza
Umberto Eco

Capitalismo, Socialismo e Democracia – Joseph A. Schumpeter

“MARX não derramou lágrimas sentimentais sobre a beleza da idéia socialista. A ausência de sentimentalismo é por ele considerada superioridade sobre aqueles a que chamava socialistas utópicos. Também não classificou o trabalhador como herói da labuta diária, o que os burgueses tanto gostam de fazer quando tremem por seus dividendos. Sempre se conservou inteiramente liberto de qualquer tendência,
tão visível em alguns dos seus adeptos, para bajular os trabalhadores. Tinha provavelmente percepção clara do que eram as massas e colocava-se muito acima delas a respeito de seus objetivos sociais, e bem além do que pensavam ou desejavam. Nunca, igualmente, defendeu qualquer ideal, como criação sua. Não tinha tal vaidade. Como todo verdadeiro profeta que se apresenta como humilde porta-voz de sua divindade, também MARX nada mais pretendeu do que revelar a lógica do processo dialético da História. Há dignidade em tudo isso, o que compensa, muita pequenez e vulgaridade, com as quais, em seu trabalho e em sua vida, tal dignidade formou estranha aliança. ”

“E mesmo ao anunciar para o futuro a sentença de morte do capitalismo, MARX nunca deixou de lhe reconhecer a necessidade histórica. Esta atitude, naturalmente, supõe uma série de fatos que o próprio MARX não estaria disposto a aceitar. Mas indubitavelmente se achava nela fortalecido e mais facilmente a aceitava, em face da percepção da lógica orgânica das coisas, à qual sua teoria da História dá exata
expressão. Para MARX, OS acontecimentos sociais obedeciam a certa ordem e, embora em alguns momentos da vida tenha sido conspirador de mesa de café, sua verdadeira personalidade desprezava esse ofício inócuo. Não tinha pelo socialismo a obsessão que anula os outros matizes da vida e cria ódios e desprezo, doentios e estúpidos, a outras civilizações. E há, em mais de um sentido, justificativa para o título reclamado por seu tipo de pensamento e determinismo socialista, ligados entre si pela força de sua posição fundamental: socialismo científico.”

“naturalmente, os homens escolhem sua maneira de agir, que não é diretamente imposta pelos dados objetivos do ambiente. Mas a escolha é feita com base em princípios, opiniões e propensões que não formam um conjunto de dados independentes, mas são, eles próprios, moldados pelo conjunto objetivo. ”

“O capitalismo é, por natureza, uma forma ou método de transformação econômica e não, apenas, reveste caráter estacionário, pois jamais poderia tê-lo. Não se deve esse caráter evolutivo do processo capitalista apenas ao fato de que a vida econômica transcorre em um meio natural e social que se modifica e que, em virtude dessa mesma transformação, altera a situação econômica. Esse fato é importante e essas transformações (guerras, revoluções e assim por diante) produzem freqüentemente transformações industriais, embora não constituam seu móvel principal. Tampouco esse caráter evolutivo se deve a um aumento quase automático da população e do capital, nem às variações do sistema monetário, do qual se pode dizer exatamente o mesmo que se aplica ao processo capitalista. O impulso fundamental que põe e
mantém em funcionamento a máquina capitalista procede dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados e das novas formas de organização industrial criadas pela empresa capitalista.”

Capitalismo, Socialismo e Democracia
Schumpeter

Schumpeter (1883-1950) escreveu Capitalism, Socialism and Democracy em 1942.

Vampiro – Jorge Mautner

(Soy soldado revolucionario soy de aquellos de caballería
Y me muere mi guapo en combate
Ay hombre, da-me una tequila! Me sigo en la infantería)

Eu uso óculos escuros
Para as minhas lágrimas esconder
Quando você vem para o meu lado,
As lágrimas começam a correr

Sinto aquela coisa no meu peito
Sinto aquela grande confusão
Sei que eu sou um vampiro
Que nunca vai ter paz no coração

Às vezes eu fico pensando
Porque é que eu faço as coisas assim
E a noite de verão ela vai passando,
Com aquele cheiro louco de jasmim

E fico embriagado de você
E fico embriagado de paixão
No meu corpo o sangue já não corre,
Não, não, corre fogo e lava de vulcão

Eu fiz uma canção cantando
Todo o amor que eu tinha por você
Você ficava escutando impassível;
Eu cantando do teu lado a morrer

Ainda teve a cara de pau
De dizer naquele tom tão educado
«oh, pero que letra tan hermosa,
Que habla de un corazón apasionado!»

Por isso é que eu sou um vampiro
E com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos
E das meninas que eu encontro

Por isso é bom não se aproximar
Muito perto dos meus olhos
Senão eu te dou uma mordida
Que deixa na tua carne aquela ferida

E na minha boca eu sinto
A saliva que já secou
De tanto esperar aquele beijo,
Aquele beijo que nunca chegou

Você é uma loucura em minha vida
Você é uma navalha para os meus olhos
Você é o estandarte da agonia
Que tem a lua e o sol do meio-dia.

Jorge Mautner

Jorge Mautner lançou “Vampiro” em 1989.

O ciúme – Alain Robbe-Grillet

“Agora a sombra da coluna – a coluna que sustenta o ângulo sudoeste do telhado – divide em duas partes iguais o ângulo correspondente da varanda. Essa varanda é uma larga galeria coberta, que cerca três lados da casa. Como sua largura é igual na parte central e nas partes laterais, o traço da sombra projetada pela coluna chega exatamente à quina da casa; mas detém-se ali, pois apenas as lajes da varanda são alcançadas pelo sol, ainda demasiado alto no céu. As paredes, de madeira, da casa – isto é, a fachada e a empena ocidental – ainda estão protegidas de seus raios pelo telhado (telhado comum à casa propriamente dita e à varanda). Assim, neste instante, a sombra da beirada do telhado coincide exatamente com a linha, em ângulo reto, que formam a varanda e as duas faces verticais da quina da casa.
Agora, A… entrou no quarto, pela porta interna que dá para o corredor central. Ela não olha pela janela escancarada, por onde, da porta, veria este canto da varanda. Voltou-se agora para a porta a fim de fechá-la. Continua usando o vestido claro, de gola reta, muito justo, que vestia no almoço”.

Alain Robbe-Grillet (1922-2008) escreveu a La jalousie (O ciúme) em 1957.

La jalousieAlain Robbe-Grillet

Mulholland Dr. – David Lynch

Uma mulher morena é atacada por um assassino profissional, mas escapa após ambos se envolverem em um acidente de carro na Avenida Mulholland em Hollywood, onde apenas a mulher sobrevive. Ela anda até Los Angeles, onde entra em um apartamento recentemente desocupado por uma mulher ruiva. Uma aspirante a atriz chamada Betty Elms chega ao apartamento e encontra a morena, que está com amnésia e não se lembra de quem é, adotando o nome “Rita” após ver o pôster de um filme estrelado por Rita Hayworth na parede. As duas decidem olhar na bolsa de Rita em busca de pistas e encontram uma grande quantia em dinheiro e uma chave azul.

Paralelamente, em uma lanchonete, um homem conta a seu amigo que teve um pesadelo em que havia um monstro nos fundos da lanchonete. Os dois decidem investigar, e a criatura aparece, deixando o homem que teve o pesadelo paralisado de medo.

Enquanto isso, o diretor de cinema Adam Kesher é pressionado pela máfia a contratar uma atriz desconhecida chamada Camilla Rhodes para o papel principal de seu novo filme. Ele se recusa, e volta para casa, onde encontra sua esposa tendo um caso com outro homem. Ela o manda embora, e, na rua, ele recebe uma ligação do banco, avisando que ele está falido. Um homem conhecido como “O Caubói” aparece e aconselha Adam a contratar Camilla Rhodes por sua segurança, e Adam concorda. Simultaneamente, um assassino profissional invade um apartamento para roubar um livro com nomes e telefones, e mata três pessoas no processo.

Externa noite – HOLLYWOOD HILLS, LOS ANGELES
    
Escuridão. Sons distantes do tráfego da rodovia. Então, mais perto som de um carro – seus faróis iluminam um loureiro e os braços de um eucalipto. Em seguida, os faróis se acendem – O sinal de rua fica de repente iluminado. As palavras no letreiro são “Mulholland Drive”. O carro faz a volta sob o letreiro e as palavras caem mais uma vez na escuridão.
    
CORTE PARA:
    
Externa NOITE – MOVIMENTAÇÃO MULHOLLAND
    
Deslizando, seguimos o carro – uma limusine negra antiga, Cadillac – à medida que ele serpenteia pela Mulholland Drive através da escuridão dos montes de Hollywood. Não há mais ninguém na estrada. À medida que nos aproximamos do carro …
    
CORTE PARA:
    
Interna. BLACK CADILLAC LIMOUSINE – NOITE
    
Dois homens com ternos escuros estão sentados no banco da frente. Uma linda e jovem mulher de cabelos escuros está sentada na parte de trás. Ela se senta, fecha a porta e olha para a escuridão. Ela parece estar pensando em algo. De repente ela vira e olha para a frente. O carro está diminuindo a velocidade e se deslocando para o acostamento.
    
MULHER DE CABELOS ESCUROS
O que você está fazendo? Você não pode parar aqui …
 
O carro pára – metade na pista, metade no acostamento, em uma curva cega. Os dois homens se voltam para a mulher.
    
MOTORISTA
Saia do carro.”

Mulholland Drive (ou Cidade dos Sonhos) foi dirigido por David Lynch (1946) e lançado em 2001.
Roteiro

Mulholland Drive

David Lynch

O último vôo do flamingo – Mia Souto

“Então, ela contou. Eu repetia palavra por palavra, decalcando sobre a voz cansada dela. Rezava: havia um lugar onde o tempo não tinha inventado a noite.
Era sempre dia. Até que, certa vez, o flamingo disse:
— Hoje farei meu último voo!
As aves, desavisadas, murcharam. Tristes, contudo, não choraram. Tristeza de pássaro não inventou lágrima. Dizem: lágrima dos pássaros se guarda lá onde fica a chuva que nunca cai.
Ao aviso do flamingo, todas as aves se juntaram. Haveria uma assembleia para se conversar o assunto. Enquanto o flamingo não chegava, se escutavam os pios em rodopios. Se acreditava em tais ditos? Podia-se e não. Fosse ou não fosse, todos se demandavam:
— Mas vai voar para onde?
— Para um sítio onde não há nenhum lugar.
O pernalta, enfim, chegou e explicou — que havia dois céus, um de cá, voável, e um outro, o céu das estrelas, inviável para voação. Ele queria passar essa fronteira.
— Por que essa viagem tão sem regresso?
O flamingo desvalorizava seu feito:
— Ora, aquilo é longe, mas não é distante
Depois ele foi internando-se nas árvores sombrosas do mangal. Demorou.
Só apareceu quando a paciência dos outros já envelhecia. Os bichos de asa se concentraram na clareira do pântano. E todos olharam o flamingo como se descobrissem, apenas então, a sua total beleza. Vinha altivo, todo por cima da sua altura. Os outros, em fila, se despediam. Um ainda pediu que ele desfizesse o
anúncio.
— Por favor, não vá!
— Tenho que ir!
A avestruz se interpôs e lhe disse:
— Veja, eu, que nunca voei, carrego as asas como duas saudades. E,
no entanto, só piso felicidades.
— Não posso, me cansei de viver num só corpo.
E falou. Queria ir lá onde não há sombra, nem mapa. Lá onde tudo é luz. Mas nunca chega a ser dia. Nesse outro mundo ele iria dormir, dormir como um deserto, esquecer que sabia voar, ignorar a arte de pousar sobre a terra.
— Não quero pousar mais. Só repousar.
E olhou para cima. O céu parecia baixo, rasteiro. O azul desse céu era tão intenso que se vertia líquido, nos olhos dos bichos.
Então, o flamingo se lançou, arco e flecha se crisparam em seu corpo. E ei-lo, eleito, elegante, se despindo do peso. Assim, visto em voo, dir-se-ia que o céu se vertebrara e a nuvem, adiante, não era senão alma de passarinho. Dir-se-ia mais: que era a própria luz que voava. E o pássaro ia desfolhando, asa em asa, as transparentes páginas do céu. Mais um bater de plumas e, de repente, a todos pareceu que o horizonte se vermelhava. Transitava de azul para tons escuros, roxos e liliáceos. Tudo se passando como se um incêndio. Nascia, assim, o primeiro poente. Quando o flamingo se extinguiu, a noite se estreou
naquela terra.”

O último vôo do flamingo
Mia Souto

Mia Souto (1955) publicou “O último vôo do flamingo” no ano 2000 pela Editorial Caminho, de Portugal.

La madrague – Brigitte Bardot

Sur la plage abandonnée
Coquillage et crustacés
Qui l’eût cru déplorent la perte de l’été
Qui depuis s’en est allé
On a rangé les vacances
Dans des valises en carton
Et c’est triste quand on pense à la saison
Du soleil et des chansons

Pourtant je sais bien l’année prochaine
Tout refleurira nous reviendrons
Mais en attendant je suis en peine
De quitter la mer et ma maison

Le mistral va s’habituer
A courir sans les voiliers
Et c’est dans ma chevelure ébouriffée
Qu’il va le plus me manquer
Le soleil mon grand copain
Ne me brulera que de loin
Croyant que nous sommes ensemble un peu fâchés
D’être tous deux séparés

Le train m’emmènera vers l’automne
Retrouver la ville sous la pluie
Mon chagrin ne sera pour personne
Je le garderai comme un ami

Mais aux premiers jours d’été
Tous les ennuis oubliés
Nous reviendrons faire la fête aux crustacés
De la plage ensoleillée
De la plage ensoleillée
De la plage ensoleillée

……………………………

Na praia abandonada
Moluscos e crustáceos
Quem teria acreditado que lamentariam a perda de verão
Que desde que se foi
Guardaram as férias
Em malas de papelão
E é triste quando se pensa na estação
Do sol e das canções

Entretanto eu sei que no próximo ano
Tudo reflorescerá e nós voltaremos
Mas enquanto espero, eu tenho pena
De abandonar o mar e minha casa

O mistral vai se acostumar
A correr sem os veleiros
E é da minha cabeleira desgrenhada
Que ele vai sentir mais falta
O sol, meu grande amigo
Só vai me bronzear de longe
Acreditando que estamos juntos, um pouco zangados
De estar todos dois separados

O trem me levará em direção ao outono
Encontrar novamente a cidade debaixo de chuva
Minha tristeza não será por ninguém
Eu vou guardá-lo como um amigo

Mas aos primeiros dias de verão
Todos os aborrecimentos esquecidos
Nós voltaremos festejar com os mariscos
Da praia ensolarada
Da praia ensolarada
Da praia ensolarada

Se a Babilônia não cair – BaianaSystem

Se a babilônia não cair, se o vento não soprar
Se a pedra não ruir, e o sofrimento perdurar
Se a babilônia não cair, se o vento não soprar
Se a pedra não ruir, e o sofrimento perdurar

Então vá, a babilônia eu sei que vai cair
Vá, não sei mais o que estou fazendo aqui
Vá, oh Jah me leve que eu quero fugir
Vá, Direto pros estúdios

Adio o cansaço faço como o rei do cangaço
Feito de carne e osso mas com punhos de aço
Faço parte dos que tomam iniciativa
E se tentar me destruir utilizo da minha esquiva

Então vá, a babilônia eu sei que vai cair
Vá, oh Jah me leve que eu quero fugir
Vá, não sei mais o que estou fazendo aqui
Vá, Direto pros estúdios

Se a babilônia não cair, se o vento não soprar
[Lyrics from: https:/lyrics.az/baianasystem/baianasystem/jah-jah-revolta.html]
Se a pedra não ruir, e o sofrimento perdurar
Se a babilônia não cair, se o vento não soprar
Se a pedra não ruir, e o sofrimento perdurar

Encontrar a pala no porta-mala do Opala
A cara do polícia que cobiça é um no padre outro na missa
Enquanto isso o compromisso omisso é o back no bolso
Jogo lenço no bom senso, o ragga logo fica tenso
Por mais que me convença, nunca muda o que penso
O ofício do momento é me sair com talento
Afasta onda nefasta e me encontre na paz do rasta man
Onda nefasta e me encontre
Afasta onda nefasta e me encontre na paz do rasta man
Onda nefasta e me encontre
Tudo bem quem tem
Tudo bem não tem
Tudo bem nao tem dinheiro
Mas sou da tribo do herdeiro dos filhos de Jah
Rastaman vibration
Rastaman vibration