Outras inquisições – Jorge Luis Borges

“As ilusões do patriotismo não têm fim. (…) O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração, a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão.”

“Cada instante é autônomo. Nem a vingança, nem o perdão, nem as prisões, nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo, que sempre se referem a fatos futuros; ou seja, a fatos que não ocorrerão conosco, que somos o minucioso presente.” (…) “Eu entendo que é assim. As ruidosas catástrofes gerais – incêndios, guerras, epidemias – são uma só dor, ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos.”

“And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal; é terrível porque é irreversível e férreo. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges.”

Jorge Luis Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986), escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, escreveu ‘Outras Inquisições’ em 1952.

Em busca do cálice sagrado – Monty Python

‘Em busca do cálice sagrado’ trata da trajetória do Rei Arthur pela Grã-Bretanha à procura de cavaleiros para se aliarem a ele e defenderem Camelot dos ataques dos saxões. As piadas começam antes do início do filme, já nos créditos. Quando o filme, de fato, começa, o Rei Arthur e seu fiel escudeiro Patsy chegam a um castelo a cavalo. Mas em nenhum momento do filme há um cavalo de verdade: eles apenas fingem cavalgar batendo em côcos, imitando o som de uma cavalaria.” E por aí vai … Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle.

Monty Python

O grupo Monty Python, composto por Eric Idle, Terry Gilliam, Graham Chapman, John Cleese, Micheal Palin e Terry Jones, começou em 1969 com um programa na televisão britânica chamado Monty Python’s Flying Circus. E a partir daí, não pararam mais: vivaram shows, filmes, livros, jogos de computador, revolucionando o que até então compunha o gênero comédia. (texto extraído de ‘Ambrosia’)

Monty Python

O ocaso do pensamento – Emil Cioran

“A mediocridade da filosofia é explicada pelo fato de que somente é possível pensar quando se está com a temperatura baixa. Quando você domina a febre, então ordenará os seus pensamentos como se fossem bonecos, manejará as idéias como se fossem marionetes na corda, e o público não escapará dessa ilusão. Mas toda vez que você olhar para si mesmo e ver um incêndio ou naufrágio, quando a paisagem interior for uma suntuosa devastação das chamas se deslocando em direção ao horizonte dos mares, então dê livre curso aos seus pensamentos, colunas intoxicadas pela epilepsia do fogo interior.” (versão minha do espanhol)

Emil cioran

“Um homem que pratica em toda a sua vida a lucidez se converte em um clássico do desespero.” (…) “A verdade, como tudo o que implique escassez de ilusão, só aparece no seio de uma vitalidade comprometida. Os instintos, incapazes de alimentar a magia dos erros que banham a vida, preenchem seus sulcos com uma lucidez desastrosa. Começamos a ver o estado das coisas e então já não poderemos mais viver. Sem erros, a vida é um edifício deserto no qual vagamos como se fôssemos peripatéticos da tristeza.”  (versão  minha do espanhol)

Emil Cioran (Rășinari, 8 de abril de 1911 — Paris, 20 de junho de 1995), escritor e filósofo romeno radicado na França.

Emil cioran

Emil cioran

Te vas a acordar de mi – Franny Glass

‘Franny Glass’, banda uruguaia que tem como vocalista Gonzalo Deniz (Montevideo, 1986).

Franny Glass


Aunque encuentres un lugar
lejos de los dos
aunque en las nuevas fotos
solo salgas vos
vas a encontrar algo
cuando estés peinándote
vas a asentir ese gusto
extraño en el cafe
una puntada en el corazon
que te va a extraer de la conversación
es injusto pero es así
te vas a acordar de mi.


Aunque en tu circulo nadie sepa quien soy
aunque nadie te haga recordar en donde estoy
sola en la oscuridad sentada en un cine
aunque otra mano este ahora acariciándote
tu cabeza se va a ir al hall
por la calle corriendo hacia el sol

No te fuiste en verdad es así
te vas a acordar de mi.
aunque todos digan sos una nueva mujer
aunque hables de mi lejana
como del ayer
algo cotidiano
algo en tu forma de hablar
siempre va a ser mio, te llevaste
y otro esta intentando besarte esta vez
vas a sonreír a tantos hombres
pero tu ojos hablan por ti
te vas a acordar de mi.

aunque fuiste vos la que apagaste la luz
aunque te hiciste la distraída en el bus
aunque no tengo respuesta a mis mensaje
y aunque se que esta en casa y no me atendes

Aunque hablas mal de mi con los demás
es peor, no es odio
se que te burlas
tengo la esperanza de que es así
todavía pensas en mi.

Necesito ocupar mi cabeza recordandonos.
Porque sino ya no hay nada que hacer
sigo pensado en vos.

Dr. Fantástico – Stanley Kubrick

Em ‘Dr. Fantástico’ (Dr. Strangelove Or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964) um general americano acredita que os soviéticos estão sabotando os reservatórios de água dos Estados Unidos e resolve, em troca, bombardear a União Soviética. Com as comunicações interrompidas, ele é o único que possui os códigos para parar as bombas e evitar o que provavelmente seria o início da Terceira Guerra Mundial. Uma das melhores comédias de todos os tempos. Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden.

Dr. Fantástico

“Kubrick jamais teria obtido tal êxito sem a presença do inigualável Peter Sellers, que interpreta nada menos que três personagens, todos extremamente distintos entre si. Há também a presença de George C. Scott, que mais tarde viria a afirmar que seria neste filme a melhor performance de sua vida. Texto de ‘Plano Crítico’.

Dr. Fantástico

Dr. Fantástico

A poética do devaneio – Gaston Bachelard

“Nos meus quarenta anos de vida filosófica, tenho ouvido dizer que a filosofia conheceu um novo ponto de partida com o cogito ergo sum de Descartes. Eu mesmo também tive de enunciar esta lição inicial. Na ordem dos pensamentos, é uma divisa tão clara! Mas não estaríamos perturbando o dogmatismo se perguntássemos ao sonhador se ele está bem certo de ser o ser que sonha o seu sonho? Semelhante questão quase não perturbava um Descartes. Para ele, pensar, querer, amar, sonhar são sempre uma atividade do seu espírito. Esse homem feliz estava sempre certo de que era ele, muito ele, somente ele, o único a ter paixões e sabedoria. Um sonhador, porém, um verdadeiro sonhador, que atravessa as loucuras da noite, estará tão seguro de ser ele mesmo? De nossa parte, duvidamos disso. Sempre recuamos ante a análise dos sonhos da noite.”

Gaston Bachelard

“Tentaremos apresentar, de forma condensada, uma filosofia ontológica da infância que põe de parte o caráter durável da infância. Por alguns de seus traços, a infância dura a vida inteira. E ela que vem animar amplos setores da vida adulta. Primeiro, a infância nunca abandona as suas moradas noturnas. Muitas vezes uma criança vem velar o nosso sono. Mas também na vida desperta, quando o devaneio trabalha sobre a nossa história, a infância que vive em nós traz o seu benefício. É preciso viver, por vezes é muito bom viver com a criança que fomos. Isso nos dá uma consciência de raiz. Toda a árvore do ser se reconforta. Os poetas nos ajudarão a reencontrar em nós essa infância viva, essa infância permanente, durável, imóvel.”

Gaston Bachelard (Bar-sur-Aube, 27 de junho de 1884 — Paris, 16 de outubro de 1962),  filósofo e poeta francês.

Gaston Bachelard

Gaston Bachelard

 

54 – Wu Ming

“Os tolos defendiam a paz apoiando o braço armado do dinheiro.
Atrás da primeira duna, os embates prosseguiam. Presas de animais imaginários cravadas nas carnes, o Céu repleto de aço e fumaça, culturas inteiras extirpadas da Terra.
Os tolos combatiam os inimigos de hoje alimentando os de amanhã.
Os tolos estufavam o peito, falavam em liberdade, democracia, em nosso meio, comendo os frutos de invasões e saques.
Defendiam a civilização contra sombras chinesas de dinossauros.
Defendiam o planeta contra simulacros de asteróides.
Defendiam a sombra chinesa de uma civilização.
Defendiam um simulacro de planeta.”

Wu Ming

Wu Ming (Wu Ming Foundation) é o pseudónimo literário compartilhado por um grupo de cinco autores italianos, egressos da seção bolonhesa do Luther Blissett Project. A identidade dos membros não é segredo, mas eles consideram a sua obra mais importante que seus rostos e biografias individuais. Cada membro usa um “nome artístico” formado pelo próprio nome do grupo e mais um algarismo, que é determinado pela ordem alfabética dos sobrenomes. De 2000 até o início de 2008, Wu Ming era formado por: Roberto Bui (Wu Ming 1); Giovanni Cattabriga (Wu Ming 2; Luca Di Meo (Wu Ming 3); Federico Guglielmi (Wu Ming 4) e Riccardo Pedrini (Wu Ming 5).
Wu Ming

Wu Ming

Wu Ming

Parisien du Nord – Cheb Mami

Cheb Mami (Ahmed Mohamed Khelifati, Saïda, Argélia, 1966). Em 1999 liderou as paradas pop francesas em um dueto com o rapper francês K-Mel com ‘Parisien du Nord’, canção que explora questões racistas entre árabes e franceses . Fez  parceria, entres outros, com Sting e com Zucchero (este com ‘Cosi Celeste’).

Cheb Mami


Watch out…
Ha, le revoilà le trio
Pour le remix
Habla chichi
Ha, Imhotep, Mami,
K-Mel
Et on y va

{Refrain:}
(Mami)
Comme ça, vous m’avez trahi
Comme ça…
Hakada dertouha blya hakda
Hakda l’aabtouh blya hakda

Ala wejhi n’kartouni ou étranger
Kouni hasseb di bladi nua h’naya n’mount
Ala wejhi n’kartouni ou étranger
Kouni hasseb di bladi nua h’naya n’mount

{au Refrain}

Mon choutèkouni walit gh’rib lawali lah ‘bib
Pourtant zaid h’na had c’chi h’ram
Mon choutèkouni walit gh’rib lawali lah ‘bib
Pourtant zaid h’na had c’chi h’ram

{au Refrain}

(K-Mel)
Parisien du Nord, clando d’abord
Un titre dans la musique, sans passeport
C’est le talent d’abord
C’est comme le Padré qui t’a fait ramer pendant des années

Des exploitants que
Je me ferais un plaisir
De caner
J’suis pas violent
Mais tant d’années à
5000 francs, c’est fané
Et pour les jeunes,
C’est la tannée
Non fallait pas faire
L’erreur, l’assimilé
D’façon, ces professions ce ne sont pas que
Des bassesses de vocation
La leçon à en tirer, c’est quoi que tu dises
Quoi que tu fasses
T’es embauché tant qu’on a pas vu ta face
(ha ha)
Je vois des jeunes P.D.-G dans leurs bureaux
Gérant leurs entreprises comme on gère des
Kilos (oh shit)
C’est pas dur, j’veux voir des “surbouffeurs”
(des enceintes) aux murs
je veux voir des sœurs comme chef ou secrétaire
qui tapent pour leurs compétences et non
pour leurs derrières
je veux enfin que les jeunes pèsent à vrai
dire…

Ala wejhi n’kartouni ou étranger
Kouni hasseb di bladi nua h’naya n’mount
Ala wejhi n’kartouni ou étranger
Kouni hasseb di bladi nua h’naya n’mount

Hakda l’aabtouh blya hakda (comme ça)…
Hakda l’aabtouh blya hakda (comme ça)…
Hakda l’aabtouh blya hakda (comme ça)…
Hakda l’aabtouh blya hakda (comme ça)…
Hakda l’aabtouh blya hakda (comme ça)…

Como defender a sociedade diante da ciência – Paul K Feyerabend

Há um ano, aproximadamente, eu estava com pouco dinheiro. Aceitei, então, um convite para contribuir para um livro sobre a relação entre ciência e religião. Para fazer o livro vender, pensei que deveria fazer da minha contribuição algo provocativo; e a declaração mais provocante que pode ser feita sobre a relação entre ciência e religião é que a ciência é uma religião.

 

Finalmente, não é absolutamente irresponsável, na situação atual do mundo, com milhões de pessoas passando fome, outros escravizados, oprimidos, na miséria absoluta do corpo e da mente, alguém tratar de pensamentos de luxo como estes? Não é a liberdade de escolha um luxo sob tais circunstâncias? Não é a irreverência e o humor que eu quero ver combinados com a liberdade de escolha, um luxo sob tais circunstâncias?

Paul Karl Feyerabend

Paul Karl Feyerabend (Viena, 13 de janeiro de 1924 — Genolier, 11 de fevereiro de 1994), filósofo austríaco, viveu no Reino Unido, Estados Unidos, Nova Zelândia, Itália e Suíça. Há uma tradução de “Against method” aqui.

Like a rolling stone – Bob Dylan

Bob Dylan (Robert Allen Zimmerman; Duluth, 24 de maio de 1941), cantor e compositor norte-americano de música folk. Lançou ‘Like a rolling stone’ em 20 de julho de 1965.


Once upon a time, you dressed so fine
Threw the bums a dime in your prime, didn’t you?
People’d call, say: “beware, doll! You’re bound to fall!”
You thought they were all kiddin’ you
You used to laugh about
Everybody that was hangin’ out
Now you don’t talk so loud
Now you don’t seem so proud
About having to be scrounging for your next meal

How does it feel?
How does it feel?
To be without a home?
Like a complete unknown?
Like a rolling stone?

You’ve went to the finest school, all right, miss lonely
But you know you only used to get juiced in it
Nobody has ever taught you how to live on the street
And now you’re gonna have to get used to it
You said you’d never compromise
With the mystery tramp, but now you realize
He’s not selling any alibis
As you stare into the vacuum of his eyes
And saying “do you want to make a deal?”

How does it feel?
How does it feel?
To be on your own?
With no direction home?
A complete unknown?
Like a rolling stone?

You never turned around to see the frowns on the jugglers and the clowns
When they all did tricks for you
You never understood that it ain’t no good
You shouldn’t let other people get your kicks for you
You used to ride on the chrome horse with your diplomat
Who carried on his shoulder a siamese cat
Ain’t it hard when you discover that
He really wasn’t where it’s at
After he took from you everything he could steal

How does it feel?
How does it feel?
To be on your own?
With no direction home?
Like a complete unknown?
Like a rolling stone?

Princess on the steeple and all the pretty people
They’re all drinkin’, thinkin’ that they got it made
Exchangin’ all precious gifts, but you better take a diamond ring
You better pawn it, babe!
You used to be so amused
At napoleon in rags and the language that he used
Go to him now, he calls you, you can’t refuse
When you ain’t got nothing you got nothing to lose
You’re invisible now, you got no secrets to conceal

How does it feel?
How does it feel?
To be on your own?
With no direction home?
Like a complete unknown?
Like a rolling stone?