Sr. Ninguém – Jaco Van Dormael

Sr. Ninguém (Mr. Nobody) é sobre as escolhas que fazemos durante nossa vida e como elas determinam o que somos. No filme, Nemo se encontra em algum lugar no futuro, um tempo em que as pessoas se tornaram imortais e ele é o último ser humano mortal ainda vivo. As pessoas tentam descobrir quem ele foi quando jovem, mas ele próprio não enxerga na própria vida o sentido que os outros buscam nela, e, apesar de guardar memórias do passado, não sabe dizer quem na verdade é.”

“Nemo condicionou suas escolhas à crença de que elas eram capazes de impedir coisas que ele imaginava que poderiam vir a acontecer. Por conta disso, só lhe sobrava um único caminho a seguir e isso sequer podia ser chamado de escolha, pois na maior parte das situações ele sequer fazia uma opção, por acreditar que “enquanto não se escolhe tudo permanece possível”.

“Já na velhice, ele não consegue descobrir quem na verdade é, simplesmente porque durante toda a sua vida ele não foi corajoso o suficiente para tomar decisões que o ajudassem a descobrir sua verdadeira identidade.” Texto extraído de Sublime irrealidade (aqui um pouco modificado)

Novelas nada exemplares – Dalton Trevisan

A mãe arrastou os chinelos, eis o odor que, por um instante, abafou os demais — queimava incenso. Mais fácil morrer do que se livrar do cadáver. O enterro só na manhã seguinte, a catinga difundia-se furtivamente pela casa, impregnava as cortinas, entranhava-se nas unhas de Ivete. O visitante batera em vão na calça, forçoso mandá-la ao tintureiro.

Não se conformava o morto em deixar a casa: no cinzeiro a cinza do cigarro, o paletó retinha o suor do corpo. Como esconder o chapéu ali no cabide, seu chapéu de aba dobrada pelas mãos agora amarelas e cruzadas no peito? Diante da janela, se a menina erguesse a cabeça, enxergaria o pijama no arame —- o seu pijama listado, com manchas que rio nenhum poderia lavar. No espelho — se fosse olhar — daria com o seu rosto lívido.

Ao lado do ataúde, Ivete esfregou a boca nas costas da mão — longa seria a espera, fácil não era? livrar-se do morto. Acendeu um cigarro, olhou através da fumaça o velho de lenço amarrado ao queixo — o lenço para que não espumasse. Olho mal fechado, espreitava-a por entre os longos cílios? Não, a pálpebra desta vez não latejava. Ivete engolia a fumaça, tonta de prazer — estava bem morto. A mãe na cozinha preparava o café para o velório.
A menina debruçou-se e examinou a pálpebra, o bigode, a boca. Ergueu-lhe a manga e, afastadas as contas negras do rosário, encostou o cigarro na mão do pai, queimando-a bem devagar.

Dalton Trevisan (Dalton Jérson Trevisan, Curitiba, 14 de junho de 1925), contista, célebre por sua natureza reservada, publicou “Novelas nada exemplares” (que contém o conto o “Morto na sala” citado acima) em 1959.

Como tornar as nossas ideias claras – Charles S. Peirce

“(…)  a ação do pensamento é excitada pela irritação da dúvida, e que cessa quando se atinge a crença; de modo que a produção da crença é a única função do pensamento”.(…) “O pensamento em ação tem como seu único motivo chegar ao descanso do pensamento; e tudo o que não se reportar à crença não faz parte do próprio pensamento.”

“A essência da crença é a criação de um hábito; e diferentes crenças distinguem-se pelos diferentes modos de ação a que dão origem.” (…) “Aquilo que o hábito é depende do quando e do como ele nos leva a agir. No que toca ao quando, qualquer estímulo para a ação provém da percepção; no que toca ao como, todo o objectivo da ação é o de produzir um resultado sensível.”

“(…) é impossível que tenhamos uma ideia nas nossas mentes que não se relacione com os concebíveis efeitos sensíveis das coisas”. (…)”Parece, pois, que a regra para atingir o terceiro grau da clareza de apreensão é a seguinte: considera quais os efeitos, que podem ter certos comportamentos práticos, que concebemos que o objeto da nossa concepção tem. A nossa concepção dos seus efeitos constitui o conjunto da nossa concepção do objeto.”

Charles Sanders Peirce (Cambridge, 10 de setembro de 1839 — Milford 19 de abril de 1914), filósofo, pedagogo, cientista e matemático americano, escreveu “Como tornar as nossas ideias claras” em 1878.

E aí, meu irmão, cadê você? – Joel e Ethan Coen

“‘E aí, meu irmão, cadê você’ (Oh Brother, Where Art Thou, EUA, 2000) narra Ulysses, um almofadinha que foge da cadeia com dois colegas a quem está acorrentado, tentando cruzar o país para encontrar e desenterrar um tesouro cuja localização Ulysses garante saber. A fuga é repleta de encontros impagáveis: um blueman negro que vendeu a alma ao Diabo para tocar violão melhor ; um gângster violento; um caixeiro viajante caolho, etc, etc.”

“Trata-se de uma viagem divertida ao centro da alma do trovador norte-americano retratada com perfeição até mesmo no ritmo lânguido e indolente da direção. O filme, todo criado em tons marrons e verdes, foi digitalizado e teve o excesso de cores removido digitalmente, de forma a ganhar as tonalidades de uma plantação de milho.” Texto em Cinereporter . Elenco: George Clooney, John Turturro, Tim Blake Nelson, Charles Durning, John Goodman, Michael Badalucco, Holly Hunter, Chris Thomas King, Wayne Duvall, Daniel von Bargen, Stephen Root.

Piano in Taksim Square – Davide Martello

Davide Martello (01 de novembro de 1981, Lörrach) é um pianista alemão de raízes sicilianas que trabalha como músico de rua, carregando seu piano (construído por ele próprio) com uma bicicleta. Em 2014 ele já havia se apresentado em 32 países. Em dezembro de 2012 fez um concerto em um acampamento do exército alemão no Afeganistão. Em junho de 2013 apresentou-se durante os protestos na Turquia, na praça Taksim, em Istambul. Em Donetsk foi tido como o “anjo da paz ao piano”.

Os homens que encaravam cabras – Grant Heslov

“Já no início de “Os homens que encaravam cabras”, os créditos avisam que “você ficaria surpreso com a quantidade de coisas neste filme que são verídicas”. Uma delas é achar – veja só – que os Estados Unidos têm a vocação moral, quase transcendental, quase divina, de salvar o mundo. O personagem de Bridges, Bill Django, volta do Vietnã crente de que seja possível fazer a paz não com tiros, mas com amor. De sua utopia hippie nasce o Exército da Nova Terra, divisão do exército dos EUA que emprega poderes psíquicos em combate. São homens de bigodes bem aparados que, dizem, podem até matar uma cabra com o olhar.”

“As melhores cenas estão nos flashbacks, rindo não só de um episódio específico da jornada belicista dos EUA mas de toda a construção do mito de seu poderio. Em Kubrick o alvo do escracho é a guerra enquanto conceito. O alvo de Heslov e Clooney é a Guerra do Iraque.” Texto extraído de Omelete. Elenco: George Clooney, Jeff Bridges, Kevin Spacey

Cartas de Rodez – Antonin Artaud

“Senhores, as leis e os costumes concedem-vos o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredito. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras? Não nos surpreendemos com vosso despreparo diante de uma tarefa para a qual só existem uns poucos predestinados. No entanto rebelamos-nos contra o direito concedido a homens – limitados ou não – de sacramentar com o encarceramento perpétuo as suas investigações no domínio do espírito”.

“E que encarceramento! Sabe-se – não se sabe o suficiente – que os hospícios, longe de serem asilos, são pavorosos cárceres onde os detentos fornecem uma mão-de-obra gratuita e cômoda, onde os suplícios são a regra, e isso é tolerado pelos senhores. O hospício de alienados, sob o manto da ciência e da justiça, é comparável à caserna, à prisão, à masmorra. Não levantaremos aqui a questão dos internamentos arbitrários, para vos poupar o trabalho dos desmentidos fáceis. Afirmamos que uma grande parte dos vossos pensionistas, perfeitamente loucos segundo a definição oficial, estão, eles também, arbitrariamente internados. Não admitimos que se freie o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra sequência de ideias e atos humanos. A repressão dos atos anti-sociais é tão ilusória quanto inaceitável no seu fundamento. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social; em nome dessa individualidade intrínseca ao homem, exigimos que sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade, pois não está ao alcance das leis prender todos os homens que pensam e agem. Sem insistir no caráter perfeitamente genial das manifestações de certos loucos, na medida da nossa capacidade de avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta da sua concepção de realidade e de todos os atos que dela decorrem.
Que tudo isso seja lembrado amanhã pela manhã, na hora da visita, quando tentarem conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais, reconheçam, os senhores só têm a superioridade da força.”

Antonin Artaud (Antoine Marie Joseph Artaud, Marselha, 4 de setembro de 1896 — Paris em 4 de março de 1948), poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro, escreveu as “Cartas de Rodez” em 1943/46.

O anti-Édipo: introdução à uma vida não fascista – Michel Foucault

• Liberem a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante.
• Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.
• Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. [(199)]
• Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.

• Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.
• Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o
liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.
• Não se apaixonem pelo poder.

Michel Foucault escreveu ‘O anti-Édipo: uma introdução à uma vida não fascista’ como prefácio ao “Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia” de Gilles Deleuze e Félix Guattari, em 1977.

Tha Mo Ghaol Air Aird A’ Chuain – Julie Fowlis

Tha Mo Ghaol Air Aird A’ Chuain – Julie Fowlis
Julie_Fowlis Julie Fowlis (1979), cantora e multi-instrumentista escocesa que canta especialmente em gaélico.


Feasgar ciùin an tùs a’ Chèitein
[Em uma noite tranquila do início de maio]
Nuair bha ‘n ialtag anns na speuran
[Quando os morcegos estavam nos céus]
Chualaim rìbhinn òg ‘s i deurach
[Ouvi uma jovem donzela chorosa]
‘Seinn fo sgàil nan geugan uain’
[Cantando na sombra de ramos verdes]
Bha a’ ghrian ‘sa chuan gu sìoladh
[O sol estava se pondo sobre o mar]
‘S reult cha d’ èirich anns an iarmailt
[E ainda não havia estrelas enfeitando o céu]
Nuair a sheinn an òigh gu cianail
[Enquanto a jovem cantava tristemente]
“Tha mo ghaol air àird a’ chuain”
[“Meu amor está no alto-mar”]

Thòisich dealt na h-oidhch’ ri tùirling
[O orvalho da noite começou a cair]
‘S lùb am braon gu caoin na flùrain
[Cada flor submetendo-se docemente às gotículas]
Shèid a’ ghaoth ‘na h-oiteig chùbhraidh
[O vento soprando uma brisa perfumada]
Beatha ‘s ùrachd do gach cluan
[Trazendo vida e renovando os campos]
Ghleus an nighneag fonn a h-òrain
[A jovem cantou sua cantiga melodiosa]
Sèimh is ciùin mar dhriùchd an Òg-mhìos
[Calma e tranquila como o orvalho de junho]
‘S bha an t-sèisd seo ‘g èirigh ‘n còmhnaidh
[E este refrão era constantemente repetido:]
“Tha mo ghaol air àird a’ chuain”
[“Meu amor está no alto-mar”]

Chiar an latha is dheàrrs’ na reultan
[O dia escureceu e as estrelas brilharam]
Sheòl an rè measg neul nan speuran
[Acertando seu curso entre as nuvens]
Shuidh an òigh, bha ‘bròn ‘ga lèireadh
[A jovem sentou, sobrecarregada de tristezas]
‘S cha robh dèigh air tàmh no suain
[Seu canto não poderia ter sido mais suave]
Theann mi faisg air reult nan òg-bhean
[Eu me aproximei da donzela]
Sheinn mu ‘gaol air chuan ‘bha seòladh
[Cantando sobre seu amor singrando o mar]
O bu bhinn a caoidhrean brònach
[Oh doce é seu triste lamento]
“Tha mo ghaol air àird a’ chuain”
[“Meu amor está no alto-mar”]

Rinn an ceòl le deòin mo thàladh
[A música me atraiu]
Dlùth do rìbinn donn nam blàth-shul
[Para próximo da donzela de cabelos castanhos e olhos quentes]
‘S i ag ùrnaigh ris an Àrd-Rìgh
[E ela orou ao Rei dos Céus]
“Dìon mo ghràdh ‘th’ air àird a’ chuain”
[Proteja o meu amor no alto-mar]
Bha a cridh’ le gaol gu sgàineadh
[Seu coração estava se despedaçando de amor]
Nuair a ghlac mi fhèin air làimh i
[Quando eu a tomei pelas mãos]
“Siab do dheòir, do ghaol tha sàbhailt
[Enxugue seus olhos, seu amor está a salvo]
Thill mi slàn bhàrr àird a’ chuain”
[Ele voltou para você do alto-mar]
(versão minha a partir do inglês)

Conferência sobre Ética – Ludwig Wittgenstein

“Sempre que me deparo com isso, de repente vejo claramente, como se fosse em um flash, não somente que nenhuma descrição que eu possa imaginar seria adequada para descrever o que eu entendo por ‘valor absoluto’, a não ser que rejeitaria ab initio qualquer descrição significativa que alguém viesse sugerir por seu significado. Ou seja, eu vejo agora que essas expressões desprovidas de sentido não carecem de sentido por não terem sido encontradas ainda as expressões corretas, mas que é a sua falta de sentido o que constitui sua própria essência. Porque tudo o que eu pretendia com elas era, precisamente, ir além do mundo, que é o mesmo que ir além da linguagem significativa”.

“Meu único propósito – e eu acho que é o de todos aqueles que tentaram escrever ou falar sobre ética ou religião – é arremeter-se contra os limites da linguagem. Este arremeter-se contra as paredes de nossa jaula é perfeita e absolutamente sem esperança. A ética, na medida em que ela surge do desejo de dizer algo sobre o sentido último da vida, o bem absoluto, o valor absoluto, não pode ser uma ciência. O que diz a ética não acrescenta nada, em nenhum sentido, a nosso conhecimento. Mas isso é uma prova de uma tendência do espírito humano que eu, pessoalmente, não posso deixar de respeitar profundamente e por nada no mundo iria ridicularizar.” (versão minha do espanhol)

Ludwig Wittgenstein (Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951), filósofo austríaco, naturalizado britânico, pronunciou a ‘Conferência sobre ética’ em Cambridge, provavelmente em 1929 ou 1930. As idéias da conferência refletem, então, os pensamentos do Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1922. Como se sabe, seu pensamento modificou-se com as ‘Investigações Filosóficas’, as quais foram publicadas postumamente, em 1953.