O inominável – Samuel Beckett

“Onde agora? Quando agora? Quem agora? Sem me perguntar isso. Dizer eu. Sem o pensar. Chamar isso de perguntas, hipóteses. Ir adiante, chamar isso de ir, chamar isso de adiante. Pode ser que um dia, primeiro passo, vá, eu tenha simplesmente ficado, no qual, em vez de sair, segundo um velho hábito, passar o dia e a noite tão longe quanto possível de casa, não era longe. Pode ter começado assim.”

“Ninguém saberá nunca o que sou, ninguém me ouvirá dizê-lo, mesmo que eu o diga, e eu não o direi, eu não poderei, tenho apenas a língua deles, sim, sim, eu o direi talvez, mesmo na linguagem deles, para mim apenas, para não ter vivido em vão, e depois para poder me calar, se é isso que dá direito ao silêncio”

“há apenas isso, é preciso continuar, é tudo o que sei, eles vão parar, conheço isso, eu os sinto me deixando, será o silêncio, um pequeno instante, um bom momento, ou será o meu, aquele que dura, que não durou, que dura sempre, serei eu, é preciso continuar”

Samuel Beckett (1906-1989) publicou O inominável em 1953.

Samuel Beckett

O inominável

As geórgicas – Claude Simon

“Ele tem cinquenta anos. É general comandante da artilharia do exército da Itália. Mora em Milão. Usa uma túnica com a gola e a frente bordadas com fios dourados. Tem sessenta anos. Toma conta das obras do terraço de seu castelo. Está cuidadosamente envolto num velho casacão militar. Enxerga pontos negros diante dos olhos. Essa noite ele estará morto. Tem trinta anos . É capitão. Vai à ópera”

“Os blocos de moradias amontoados e construídos (ou moldados de uma só vez, colocados) direto sobre a terra amarela e ondulada, com suas roupas descoradas penduradas em guirlandas murchas, as calças compridas escuras rígidas e achatadas como táboas rodopiando ou se balançando ao vento brando, as altas nuvens de poeira levantando-se, girando, fugindo entre as fachadas melancólicas, caindo, erguendo-se outra vez acima das calçadas danificadas, poeirentas, onde escorrem em viscosas valas de lama preta as águas eternas e vâs lavagens de roupa expulsas em breves jatos dos canos, os escoamentos azulados com cheiro enjoativo e insípido de sabão, de sujeira (como se apesar de lavada, enxaguada com bastante água, a miséria continuasse fedendo), cobertas de bolhas como domos derivando com lentidão, vindo aglutinar-se em pencas sob as nuvens de moscas nos orifícios entupidos dos esgotos, opacas, cobertas por uma espécie de véu, de película impedindo-lhes de rebentar, isso tudo).”

Claude Simon (1913-2005) escreveu “As geórgicas” em 1981.

Claude Simon

As geórgicas