Requiem for the american dream – Noam Chomsky

DEZ PRINCÍPIOS DA CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZA E PODER

  1. Reduzir a Democracia
  2. Moldar a ideologia
  3. Redesenhar a economia
  4. Deslocar o fardo de sustentar a sociedade para os pobres e classe média
  5. Atacar a solidariedade
  6. Controlar os reguladores
  7. Controlar as eleições
  8. Manter a ralé na linha
  9. Fabricar consensos e criar consumidores
  10. Marginalizar a população

Como tornar as nossas ideias claras – Charles S. Peirce

“(…)  a ação do pensamento é excitada pela irritação da dúvida, e que cessa quando se atinge a crença; de modo que a produção da crença é a única função do pensamento”.(…) “O pensamento em ação tem como seu único motivo chegar ao descanso do pensamento; e tudo o que não se reportar à crença não faz parte do próprio pensamento.”

“A essência da crença é a criação de um hábito; e diferentes crenças distinguem-se pelos diferentes modos de ação a que dão origem.” (…) “Aquilo que o hábito é depende do quando e do como ele nos leva a agir. No que toca ao quando, qualquer estímulo para a ação provém da percepção; no que toca ao como, todo o objectivo da ação é o de produzir um resultado sensível.”

“(…) é impossível que tenhamos uma ideia nas nossas mentes que não se relacione com os concebíveis efeitos sensíveis das coisas”. (…)”Parece, pois, que a regra para atingir o terceiro grau da clareza de apreensão é a seguinte: considera quais os efeitos, que podem ter certos comportamentos práticos, que concebemos que o objeto da nossa concepção tem. A nossa concepção dos seus efeitos constitui o conjunto da nossa concepção do objeto.”

Charles Sanders Peirce (Cambridge, 10 de setembro de 1839 — Milford 19 de abril de 1914), filósofo, pedagogo, cientista e matemático americano, escreveu “Como tornar as nossas ideias claras” em 1878.

Cartas de Rodez – Antonin Artaud

“Senhores, as leis e os costumes concedem-vos o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredito. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras? Não nos surpreendemos com vosso despreparo diante de uma tarefa para a qual só existem uns poucos predestinados. No entanto rebelamos-nos contra o direito concedido a homens – limitados ou não – de sacramentar com o encarceramento perpétuo as suas investigações no domínio do espírito”.

“E que encarceramento! Sabe-se – não se sabe o suficiente – que os hospícios, longe de serem asilos, são pavorosos cárceres onde os detentos fornecem uma mão-de-obra gratuita e cômoda, onde os suplícios são a regra, e isso é tolerado pelos senhores. O hospício de alienados, sob o manto da ciência e da justiça, é comparável à caserna, à prisão, à masmorra. Não levantaremos aqui a questão dos internamentos arbitrários, para vos poupar o trabalho dos desmentidos fáceis. Afirmamos que uma grande parte dos vossos pensionistas, perfeitamente loucos segundo a definição oficial, estão, eles também, arbitrariamente internados. Não admitimos que se freie o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra sequência de ideias e atos humanos. A repressão dos atos anti-sociais é tão ilusória quanto inaceitável no seu fundamento. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social; em nome dessa individualidade intrínseca ao homem, exigimos que sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade, pois não está ao alcance das leis prender todos os homens que pensam e agem. Sem insistir no caráter perfeitamente genial das manifestações de certos loucos, na medida da nossa capacidade de avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta da sua concepção de realidade e de todos os atos que dela decorrem.
Que tudo isso seja lembrado amanhã pela manhã, na hora da visita, quando tentarem conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais, reconheçam, os senhores só têm a superioridade da força.”

Antonin Artaud (Antoine Marie Joseph Artaud, Marselha, 4 de setembro de 1896 — Paris em 4 de março de 1948), poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro, escreveu as “Cartas de Rodez” em 1943/46.

O anti-Édipo: introdução à uma vida não fascista – Michel Foucault

• Liberem a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante.
• Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.
• Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. [(199)]
• Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.

• Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.
• Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o
liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.
• Não se apaixonem pelo poder.

Michel Foucault escreveu ‘O anti-Édipo: uma introdução à uma vida não fascista’ como prefácio ao “Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia” de Gilles Deleuze e Félix Guattari, em 1977.

Conferência sobre Ética – Ludwig Wittgenstein

“Sempre que me deparo com isso, de repente vejo claramente, como se fosse em um flash, não somente que nenhuma descrição que eu possa imaginar seria adequada para descrever o que eu entendo por ‘valor absoluto’, a não ser que rejeitaria ab initio qualquer descrição significativa que alguém viesse sugerir por seu significado. Ou seja, eu vejo agora que essas expressões desprovidas de sentido não carecem de sentido por não terem sido encontradas ainda as expressões corretas, mas que é a sua falta de sentido o que constitui sua própria essência. Porque tudo o que eu pretendia com elas era, precisamente, ir além do mundo, que é o mesmo que ir além da linguagem significativa”.

“Meu único propósito – e eu acho que é o de todos aqueles que tentaram escrever ou falar sobre ética ou religião – é arremeter-se contra os limites da linguagem. Este arremeter-se contra as paredes de nossa jaula é perfeita e absolutamente sem esperança. A ética, na medida em que ela surge do desejo de dizer algo sobre o sentido último da vida, o bem absoluto, o valor absoluto, não pode ser uma ciência. O que diz a ética não acrescenta nada, em nenhum sentido, a nosso conhecimento. Mas isso é uma prova de uma tendência do espírito humano que eu, pessoalmente, não posso deixar de respeitar profundamente e por nada no mundo iria ridicularizar.” (versão minha do espanhol)

Ludwig Wittgenstein (Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951), filósofo austríaco, naturalizado britânico, pronunciou a ‘Conferência sobre ética’ em Cambridge, provavelmente em 1929 ou 1930. As idéias da conferência refletem, então, os pensamentos do Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1922. Como se sabe, seu pensamento modificou-se com as ‘Investigações Filosóficas’, as quais foram publicadas postumamente, em 1953.

Outras inquisições – Jorge Luis Borges

“As ilusões do patriotismo não têm fim. (…) O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração, a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão.”

“Cada instante é autônomo. Nem a vingança, nem o perdão, nem as prisões, nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo, que sempre se referem a fatos futuros; ou seja, a fatos que não ocorrerão conosco, que somos o minucioso presente.” (…) “Eu entendo que é assim. As ruidosas catástrofes gerais – incêndios, guerras, epidemias – são uma só dor, ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos.”

“And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal; é terrível porque é irreversível e férreo. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges.”

Jorge Luis Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986), escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, escreveu ‘Outras Inquisições’ em 1952.

O ocaso do pensamento – Emil Cioran

“A mediocridade da filosofia é explicada pelo fato de que somente é possível pensar quando se está com a temperatura baixa. Quando você domina a febre, então ordenará os seus pensamentos como se fossem bonecos, manejará as idéias como se fossem marionetes na corda, e o público não escapará dessa ilusão. Mas toda vez que você olhar para si mesmo e ver um incêndio ou naufrágio, quando a paisagem interior for uma suntuosa devastação das chamas se deslocando em direção ao horizonte dos mares, então dê livre curso aos seus pensamentos, colunas intoxicadas pela epilepsia do fogo interior.” (versão minha do espanhol)

Emil cioran

“Um homem que pratica em toda a sua vida a lucidez se converte em um clássico do desespero.” (…) “A verdade, como tudo o que implique escassez de ilusão, só aparece no seio de uma vitalidade comprometida. Os instintos, incapazes de alimentar a magia dos erros que banham a vida, preenchem seus sulcos com uma lucidez desastrosa. Começamos a ver o estado das coisas e então já não poderemos mais viver. Sem erros, a vida é um edifício deserto no qual vagamos como se fôssemos peripatéticos da tristeza.”  (versão  minha do espanhol)

Emil Cioran (Rășinari, 8 de abril de 1911 — Paris, 20 de junho de 1995), escritor e filósofo romeno radicado na França.

Emil cioran

Emil cioran

A poética do devaneio – Gaston Bachelard

“Nos meus quarenta anos de vida filosófica, tenho ouvido dizer que a filosofia conheceu um novo ponto de partida com o cogito ergo sum de Descartes. Eu mesmo também tive de enunciar esta lição inicial. Na ordem dos pensamentos, é uma divisa tão clara! Mas não estaríamos perturbando o dogmatismo se perguntássemos ao sonhador se ele está bem certo de ser o ser que sonha o seu sonho? Semelhante questão quase não perturbava um Descartes. Para ele, pensar, querer, amar, sonhar são sempre uma atividade do seu espírito. Esse homem feliz estava sempre certo de que era ele, muito ele, somente ele, o único a ter paixões e sabedoria. Um sonhador, porém, um verdadeiro sonhador, que atravessa as loucuras da noite, estará tão seguro de ser ele mesmo? De nossa parte, duvidamos disso. Sempre recuamos ante a análise dos sonhos da noite.”

Gaston Bachelard

“Tentaremos apresentar, de forma condensada, uma filosofia ontológica da infância que põe de parte o caráter durável da infância. Por alguns de seus traços, a infância dura a vida inteira. E ela que vem animar amplos setores da vida adulta. Primeiro, a infância nunca abandona as suas moradas noturnas. Muitas vezes uma criança vem velar o nosso sono. Mas também na vida desperta, quando o devaneio trabalha sobre a nossa história, a infância que vive em nós traz o seu benefício. É preciso viver, por vezes é muito bom viver com a criança que fomos. Isso nos dá uma consciência de raiz. Toda a árvore do ser se reconforta. Os poetas nos ajudarão a reencontrar em nós essa infância viva, essa infância permanente, durável, imóvel.”

Gaston Bachelard (Bar-sur-Aube, 27 de junho de 1884 — Paris, 16 de outubro de 1962),  filósofo e poeta francês.

Gaston Bachelard

Gaston Bachelard

 

Como defender a sociedade diante da ciência – Paul K Feyerabend

Há um ano, aproximadamente, eu estava com pouco dinheiro. Aceitei, então, um convite para contribuir para um livro sobre a relação entre ciência e religião. Para fazer o livro vender, pensei que deveria fazer da minha contribuição algo provocativo; e a declaração mais provocante que pode ser feita sobre a relação entre ciência e religião é que a ciência é uma religião.

 

Finalmente, não é absolutamente irresponsável, na situação atual do mundo, com milhões de pessoas passando fome, outros escravizados, oprimidos, na miséria absoluta do corpo e da mente, alguém tratar de pensamentos de luxo como estes? Não é a liberdade de escolha um luxo sob tais circunstâncias? Não é a irreverência e o humor que eu quero ver combinados com a liberdade de escolha, um luxo sob tais circunstâncias?

Paul Karl Feyerabend

Paul Karl Feyerabend (Viena, 13 de janeiro de 1924 — Genolier, 11 de fevereiro de 1994), filósofo austríaco, viveu no Reino Unido, Estados Unidos, Nova Zelândia, Itália e Suíça. Há uma tradução de “Against method” aqui.

A metáfora viva – Paul Ricoeur

Vou indicar logo como concebo o acesso à questão da existência pelo atalho dessa semântica: uma elucidação simplesmente semântica permanece “no ar” enquanto não mostrarmos que a compreensão das expressões multívocas ou simbólicas é um momento da compreensão de si; o enfoque semântico se encadeará, assim, como um enfoque reflexivo. Todavia, o sujeito que se interpreta, interpretando os signos, não é mais o Cogito: é um existente que descobre, pela exegese de sua vida, que é posto no ser antes mesmo que se ponha o se possua. Dessa forma, a hermenêutica descobriria um modo de existir que permaneceria de ponta a ponta ser-interpretado. Somente a reflexão, ao abolir-se como reflexão, pode conduzir às raízes ontológicas da compreensão. Mas isso não cessa de ocorrer na linguagem, pelo movimento da reflexão. Eis a via árdua que iremos percorrer”

Paul Ricoeur

A metáfora faz imagem’ (literalmente: põe diante dos olhos); dito de outro modo, a metáfora dá à captação do gênero esta coloração concreta que os modernos chamarão estilo imagético, estilo figurado

Paul Ricoeur

Paul Ricœur (Valence, 27 de Fevereiro de 1913 – Châtenay-Malabry, perto de Paris, 20 de Maio de 2005) escreveu ‘A metáfora viva’ em 1975.