Conferência sobre Ética – Ludwig Wittgenstein

“Sempre que me deparo com isso, de repente vejo claramente, como se fosse em um flash, não somente que nenhuma descrição que eu possa imaginar seria adequada para descrever o que eu entendo por ‘valor absoluto’, a não ser que rejeitaria ab initio qualquer descrição significativa que alguém viesse sugerir por seu significado. Ou seja, eu vejo agora que essas expressões desprovidas de sentido não carecem de sentido por não terem sido encontradas ainda as expressões corretas, mas que é a sua falta de sentido o que constitui sua própria essência. Porque tudo o que eu pretendia com elas era, precisamente, ir além do mundo, que é o mesmo que ir além da linguagem significativa”.

“Meu único propósito – e eu acho que é o de todos aqueles que tentaram escrever ou falar sobre ética ou religião – é arremeter-se contra os limites da linguagem. Este arremeter-se contra as paredes de nossa jaula é perfeita e absolutamente sem esperança. A ética, na medida em que ela surge do desejo de dizer algo sobre o sentido último da vida, o bem absoluto, o valor absoluto, não pode ser uma ciência. O que diz a ética não acrescenta nada, em nenhum sentido, a nosso conhecimento. Mas isso é uma prova de uma tendência do espírito humano que eu, pessoalmente, não posso deixar de respeitar profundamente e por nada no mundo iria ridicularizar.” (versão minha do espanhol)

Ludwig Wittgenstein (Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951), filósofo austríaco, naturalizado britânico, pronunciou a ‘Conferência sobre ética’ em Cambridge, provavelmente em 1929 ou 1930. As idéias da conferência refletem, então, os pensamentos do Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1922. Como se sabe, seu pensamento modificou-se com as ‘Investigações Filosóficas’, as quais foram publicadas postumamente, em 1953.

Outras inquisições – Jorge Luis Borges

“As ilusões do patriotismo não têm fim. (…) O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração, a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão.”

“Cada instante é autônomo. Nem a vingança, nem o perdão, nem as prisões, nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo, que sempre se referem a fatos futuros; ou seja, a fatos que não ocorrerão conosco, que somos o minucioso presente.” (…) “Eu entendo que é assim. As ruidosas catástrofes gerais – incêndios, guerras, epidemias – são uma só dor, ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos.”

“And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal; é terrível porque é irreversível e férreo. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges.”

Jorge Luis Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986), escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, escreveu ‘Outras Inquisições’ em 1952.

O ocaso do pensamento – Emil Cioran

“A mediocridade da filosofia é explicada pelo fato de que somente é possível pensar quando se está com a temperatura baixa. Quando você domina a febre, então ordenará os seus pensamentos como se fossem bonecos, manejará as idéias como se fossem marionetes na corda, e o público não escapará dessa ilusão. Mas toda vez que você olhar para si mesmo e ver um incêndio ou naufrágio, quando a paisagem interior for uma suntuosa devastação das chamas se deslocando em direção ao horizonte dos mares, então dê livre curso aos seus pensamentos, colunas intoxicadas pela epilepsia do fogo interior.” (versão minha do espanhol)

Emil cioran

“Um homem que pratica em toda a sua vida a lucidez se converte em um clássico do desespero.” (…) “A verdade, como tudo o que implique escassez de ilusão, só aparece no seio de uma vitalidade comprometida. Os instintos, incapazes de alimentar a magia dos erros que banham a vida, preenchem seus sulcos com uma lucidez desastrosa. Começamos a ver o estado das coisas e então já não poderemos mais viver. Sem erros, a vida é um edifício deserto no qual vagamos como se fôssemos peripatéticos da tristeza.”  (versão  minha do espanhol)

Emil Cioran (Rășinari, 8 de abril de 1911 — Paris, 20 de junho de 1995), escritor e filósofo romeno radicado na França.

Emil cioran

Emil cioran

A poética do devaneio – Gaston Bachelard

“Nos meus quarenta anos de vida filosófica, tenho ouvido dizer que a filosofia conheceu um novo ponto de partida com o cogito ergo sum de Descartes. Eu mesmo também tive de enunciar esta lição inicial. Na ordem dos pensamentos, é uma divisa tão clara! Mas não estaríamos perturbando o dogmatismo se perguntássemos ao sonhador se ele está bem certo de ser o ser que sonha o seu sonho? Semelhante questão quase não perturbava um Descartes. Para ele, pensar, querer, amar, sonhar são sempre uma atividade do seu espírito. Esse homem feliz estava sempre certo de que era ele, muito ele, somente ele, o único a ter paixões e sabedoria. Um sonhador, porém, um verdadeiro sonhador, que atravessa as loucuras da noite, estará tão seguro de ser ele mesmo? De nossa parte, duvidamos disso. Sempre recuamos ante a análise dos sonhos da noite.”

Gaston Bachelard

“Tentaremos apresentar, de forma condensada, uma filosofia ontológica da infância que põe de parte o caráter durável da infância. Por alguns de seus traços, a infância dura a vida inteira. E ela que vem animar amplos setores da vida adulta. Primeiro, a infância nunca abandona as suas moradas noturnas. Muitas vezes uma criança vem velar o nosso sono. Mas também na vida desperta, quando o devaneio trabalha sobre a nossa história, a infância que vive em nós traz o seu benefício. É preciso viver, por vezes é muito bom viver com a criança que fomos. Isso nos dá uma consciência de raiz. Toda a árvore do ser se reconforta. Os poetas nos ajudarão a reencontrar em nós essa infância viva, essa infância permanente, durável, imóvel.”

Gaston Bachelard (Bar-sur-Aube, 27 de junho de 1884 — Paris, 16 de outubro de 1962),  filósofo e poeta francês.

Gaston Bachelard

Gaston Bachelard

 

Como defender a sociedade diante da ciência – Paul K Feyerabend

Há um ano, aproximadamente, eu estava com pouco dinheiro. Aceitei, então, um convite para contribuir para um livro sobre a relação entre ciência e religião. Para fazer o livro vender, pensei que deveria fazer da minha contribuição algo provocativo; e a declaração mais provocante que pode ser feita sobre a relação entre ciência e religião é que a ciência é uma religião.

 

Finalmente, não é absolutamente irresponsável, na situação atual do mundo, com milhões de pessoas passando fome, outros escravizados, oprimidos, na miséria absoluta do corpo e da mente, alguém tratar de pensamentos de luxo como estes? Não é a liberdade de escolha um luxo sob tais circunstâncias? Não é a irreverência e o humor que eu quero ver combinados com a liberdade de escolha, um luxo sob tais circunstâncias?

Paul Karl Feyerabend

Paul Karl Feyerabend (Viena, 13 de janeiro de 1924 — Genolier, 11 de fevereiro de 1994), filósofo austríaco, viveu no Reino Unido, Estados Unidos, Nova Zelândia, Itália e Suíça. Há uma tradução de “Against method” aqui.

A metáfora viva – Paul Ricoeur

Vou indicar logo como concebo o acesso à questão da existência pelo atalho dessa semântica: uma elucidação simplesmente semântica permanece “no ar” enquanto não mostrarmos que a compreensão das expressões multívocas ou simbólicas é um momento da compreensão de si; o enfoque semântico se encadeará, assim, como um enfoque reflexivo. Todavia, o sujeito que se interpreta, interpretando os signos, não é mais o Cogito: é um existente que descobre, pela exegese de sua vida, que é posto no ser antes mesmo que se ponha o se possua. Dessa forma, a hermenêutica descobriria um modo de existir que permaneceria de ponta a ponta ser-interpretado. Somente a reflexão, ao abolir-se como reflexão, pode conduzir às raízes ontológicas da compreensão. Mas isso não cessa de ocorrer na linguagem, pelo movimento da reflexão. Eis a via árdua que iremos percorrer”

Paul Ricoeur

A metáfora faz imagem’ (literalmente: põe diante dos olhos); dito de outro modo, a metáfora dá à captação do gênero esta coloração concreta que os modernos chamarão estilo imagético, estilo figurado

Paul Ricoeur

Paul Ricœur (Valence, 27 de Fevereiro de 1913 – Châtenay-Malabry, perto de Paris, 20 de Maio de 2005) escreveu ‘A metáfora viva’ em 1975.

Mídia: propaganda política e manipulação – Noam Chomsky

É necessário, também, falsificar completamente a história. Essa é outra maneira de superar as tais restrições doentias: passar a impressão de que quando atacamos e destruímos alguém, na verdade estamos nos protegendo e nos defendendo de agressores e monstros perigosos, e assim por diante.

Retomando meu comentário original, penso que não se trata simplesmente de desinformação e da crise do Golfo. A questão é muito mais ampla. Trata-se de saber se queremos viver numa sociedade livre ou sujeitos àquilo que corresponde a uma forma de totalitarismo autoimposto, com o rebanho desorientado marginalizado, distraído com outros assuntos, aterrorizado, berrando slogans patrióticos, temendo por sua vida e reverenciando o líder que o salvou da destruição, enquanto as massas instruídas são enquadradas e repetem os slogans que se espera que repitam, e a sociedade entra em decadência. Nós acabamos fazendo o papel de um Estado mercenário disciplinador, esperando que os outros nos paguem para destruir o mundo. Essas são as escolhas. Essa é a escolha que vocês têm de enfrentar. A resposta a essas perguntas está, em grande medida, nas mãos de pessoas como vocês e como eu.

Noam Chomsky (Avram Noam Chomsky, Filadélfia, 7 de dezembro de 1928), linguista, filósofo e ativista político norte-americano, professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, escreveu ‘Mídia: propaganda política e manipulação’ (Media control) em 2002.

Homo sacer – o poder soberano e a vida nua – Giorgio Agamben

“Por trás do longo processo antagonístico que leva ao reconhecimento dos direitos e das liberdades formais está, ainda uma vez, o corpo do homem sacro, com o seu duplo soberano, sua vida insacrificável e, porém, matável. Tomar consciência dessa aporia não significa desvalorizar as conquistas e as dificuldades da democracia, mas tentar de uma vez por todas compreender por que, justamente no instante em que parecia haver triunfado sobre seus adversários e atingido seu apogeu, ela se revelou inesperadamente incapaz de salvar de uma ruína sem precedentes aquela ‘zoé’ a cuja liberação e felicidade havia dedicado todos seus esforços. A decadência da democracia moderna e seu progressivo convergir com os estados totalitários nas sociedades pós-democráticas espetaculares (que começam a tornar-se evidentes já com Tocqueville e encontraram nas análises de Debord sua sanção final) têm, talvez, sua raiz nesta aporia que marca o seu início e a cinge em secreta cumplicidade com o seu inimigo mais aguerrido”.

Se denominamos forma-de-vida a este ser que é somente a sua nua existência, essa vida que é sua forma e que permanece inseparável desta, então veremos abrir-se um campo de pesquisa que jaz além daquele definido pela intersecção de política e filosofia, ciências médico-biológicas e jurisprudência. Mas antes será preciso verificar como, no interior das fronteiras destas disciplinas, algo como uma vida nua possa ter sido pensado, e de que modo, em seu desenvolvimento histórico, elas tenham acabado por chocar-se com um limite além do qual elas não podem prosseguir, a não ser sob o risco de uma catástrofe biopolítica sem precedentes.

Giorgio Agamben escreveu “Homo Sacer” em 1995.

À sombra das maiorias silenciosas – Jean Baudrillard

“(…) as massas resistem escandalosamente a esse imperativo da  comunicação racional. O que se lhes dá é sentido e elas querem espetáculo. Nenhuma força pôde convertê-las à seriedade dos conteúdos, nem mesmo à seriedade do código. O que se lhes dá são mensagens, elas querem apenas signos, elas idolatram o jogo de signos e de estereótipos, idolatram todos os conteúdos desde que eles se transformem numa seqüência espetacular”

Jean Baudrillard

“Todos os grandes esquemas da razão sofreram o mesmo destino. Eles só descreveram sua trajetória, só seguiram o curso de sua história no diminuto topo da camada social detentora do sentido (e em particular do sentido social), mas no essencial somente penetraram nas massas ao preço de um desvio, de uma distorção radical. Assim foi com a razão histórica, a razão política, a razão cultural e a razão revolucionária – assim foi com a própria razão do social, a mais interessante pois é a que parece inerente às massas, e por tê-las produzido no curso de sua evolução. As massas são o “espelho do social”? Não, elas não refletem o social, nem se refletem no social – é o espelho do social que nelas se despedaça.”

Jean Baudrillard (Reims, 27 de julho de 1929 — Paris, 6 de março de 2007), filósofo.

Jean Baudrillard