Capitalismo, Socialismo e Democracia – Joseph A. Schumpeter

“MARX não derramou lágrimas sentimentais sobre a beleza da idéia socialista. A ausência de sentimentalismo é por ele considerada superioridade sobre aqueles a que chamava socialistas utópicos. Também não classificou o trabalhador como herói da labuta diária, o que os burgueses tanto gostam de fazer quando tremem por seus dividendos. Sempre se conservou inteiramente liberto de qualquer tendência,
tão visível em alguns dos seus adeptos, para bajular os trabalhadores. Tinha provavelmente percepção clara do que eram as massas e colocava-se muito acima delas a respeito de seus objetivos sociais, e bem além do que pensavam ou desejavam. Nunca, igualmente, defendeu qualquer ideal, como criação sua. Não tinha tal vaidade. Como todo verdadeiro profeta que se apresenta como humilde porta-voz de sua divindade, também MARX nada mais pretendeu do que revelar a lógica do processo dialético da História. Há dignidade em tudo isso, o que compensa, muita pequenez e vulgaridade, com as quais, em seu trabalho e em sua vida, tal dignidade formou estranha aliança. ”

“E mesmo ao anunciar para o futuro a sentença de morte do capitalismo, MARX nunca deixou de lhe reconhecer a necessidade histórica. Esta atitude, naturalmente, supõe uma série de fatos que o próprio MARX não estaria disposto a aceitar. Mas indubitavelmente se achava nela fortalecido e mais facilmente a aceitava, em face da percepção da lógica orgânica das coisas, à qual sua teoria da História dá exata
expressão. Para MARX, OS acontecimentos sociais obedeciam a certa ordem e, embora em alguns momentos da vida tenha sido conspirador de mesa de café, sua verdadeira personalidade desprezava esse ofício inócuo. Não tinha pelo socialismo a obsessão que anula os outros matizes da vida e cria ódios e desprezo, doentios e estúpidos, a outras civilizações. E há, em mais de um sentido, justificativa para o título reclamado por seu tipo de pensamento e determinismo socialista, ligados entre si pela força de sua posição fundamental: socialismo científico.”

“naturalmente, os homens escolhem sua maneira de agir, que não é diretamente imposta pelos dados objetivos do ambiente. Mas a escolha é feita com base em princípios, opiniões e propensões que não formam um conjunto de dados independentes, mas são, eles próprios, moldados pelo conjunto objetivo. ”

“O capitalismo é, por natureza, uma forma ou método de transformação econômica e não, apenas, reveste caráter estacionário, pois jamais poderia tê-lo. Não se deve esse caráter evolutivo do processo capitalista apenas ao fato de que a vida econômica transcorre em um meio natural e social que se modifica e que, em virtude dessa mesma transformação, altera a situação econômica. Esse fato é importante e essas transformações (guerras, revoluções e assim por diante) produzem freqüentemente transformações industriais, embora não constituam seu móvel principal. Tampouco esse caráter evolutivo se deve a um aumento quase automático da população e do capital, nem às variações do sistema monetário, do qual se pode dizer exatamente o mesmo que se aplica ao processo capitalista. O impulso fundamental que põe e
mantém em funcionamento a máquina capitalista procede dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados e das novas formas de organização industrial criadas pela empresa capitalista.”

Capitalismo, Socialismo e Democracia
Schumpeter

Schumpeter (1883-1950) escreveu Capitalism, Socialism and Democracy em 1942.