As geórgicas – Claude Simon

“Ele tem cinquenta anos. É general comandante da artilharia do exército da Itália. Mora em Milão. Usa uma túnica com a gola e a frente bordadas com fios dourados. Tem sessenta anos. Toma conta das obras do terraço de seu castelo. Está cuidadosamente envolto num velho casacão militar. Enxerga pontos negros diante dos olhos. Essa noite ele estará morto. Tem trinta anos . É capitão. Vai à ópera”

“Os blocos de moradias amontoados e construídos (ou moldados de uma só vez, colocados) direto sobre a terra amarela e ondulada, com suas roupas descoradas penduradas em guirlandas murchas, as calças compridas escuras rígidas e achatadas como táboas rodopiando ou se balançando ao vento brando, as altas nuvens de poeira levantando-se, girando, fugindo entre as fachadas melancólicas, caindo, erguendo-se outra vez acima das calçadas danificadas, poeirentas, onde escorrem em viscosas valas de lama preta as águas eternas e vâs lavagens de roupa expulsas em breves jatos dos canos, os escoamentos azulados com cheiro enjoativo e insípido de sabão, de sujeira (como se apesar de lavada, enxaguada com bastante água, a miséria continuasse fedendo), cobertas de bolhas como domos derivando com lentidão, vindo aglutinar-se em pencas sob as nuvens de moscas nos orifícios entupidos dos esgotos, opacas, cobertas por uma espécie de véu, de película impedindo-lhes de rebentar, isso tudo).”

Claude Simon (1913-2005) escreveu “As geórgicas” em 1981.

Claude Simon

As geórgicas