Piano in Taksim Square – Davide Martello

Davide Martello (01 de novembro de 1981, Lörrach) é um pianista alemão de raízes sicilianas que trabalha como músico de rua, carregando seu piano (construído por ele próprio) com uma bicicleta. Em 2014 ele já havia se apresentado em 32 países. Em dezembro de 2012 fez um concerto em um acampamento do exército alemão no Afeganistão. Em junho de 2013 apresentou-se durante os protestos na Turquia, na praça Taksim, em Istambul. Em Donetsk foi tido como o “anjo da paz ao piano”.

Os homens que encaravam cabras – Grant Heslov

“Já no início de “Os homens que encaravam cabras”, os créditos avisam que “você ficaria surpreso com a quantidade de coisas neste filme que são verídicas”. Uma delas é achar – veja só – que os Estados Unidos têm a vocação moral, quase transcendental, quase divina, de salvar o mundo. O personagem de Bridges, Bill Django, volta do Vietnã crente de que seja possível fazer a paz não com tiros, mas com amor. De sua utopia hippie nasce o Exército da Nova Terra, divisão do exército dos EUA que emprega poderes psíquicos em combate. São homens de bigodes bem aparados que, dizem, podem até matar uma cabra com o olhar.”

“As melhores cenas estão nos flashbacks, rindo não só de um episódio específico da jornada belicista dos EUA mas de toda a construção do mito de seu poderio. Em Kubrick o alvo do escracho é a guerra enquanto conceito. O alvo de Heslov e Clooney é a Guerra do Iraque.” Texto extraído de Omelete. Elenco: George Clooney, Jeff Bridges, Kevin Spacey

Cartas de Rodez – Antonin Artaud

“Senhores, as leis e os costumes concedem-vos o direito de medir o espírito. Essa jurisdição soberana e temível é exercida com vossa razão. Deixai-nos rir. A credulidade dos povos civilizados, dos sábios, dos governos, adorna a psiquiatria de não sei que luzes sobrenaturais. O processo da vossa profissão já recebeu seu veredito. Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais. Mas para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras? Não nos surpreendemos com vosso despreparo diante de uma tarefa para a qual só existem uns poucos predestinados. No entanto rebelamos-nos contra o direito concedido a homens – limitados ou não – de sacramentar com o encarceramento perpétuo as suas investigações no domínio do espírito”.

“E que encarceramento! Sabe-se – não se sabe o suficiente – que os hospícios, longe de serem asilos, são pavorosos cárceres onde os detentos fornecem uma mão-de-obra gratuita e cômoda, onde os suplícios são a regra, e isso é tolerado pelos senhores. O hospício de alienados, sob o manto da ciência e da justiça, é comparável à caserna, à prisão, à masmorra. Não levantaremos aqui a questão dos internamentos arbitrários, para vos poupar o trabalho dos desmentidos fáceis. Afirmamos que uma grande parte dos vossos pensionistas, perfeitamente loucos segundo a definição oficial, estão, eles também, arbitrariamente internados. Não admitimos que se freie o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra sequência de ideias e atos humanos. A repressão dos atos anti-sociais é tão ilusória quanto inaceitável no seu fundamento. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social; em nome dessa individualidade intrínseca ao homem, exigimos que sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade, pois não está ao alcance das leis prender todos os homens que pensam e agem. Sem insistir no caráter perfeitamente genial das manifestações de certos loucos, na medida da nossa capacidade de avaliá-las, afirmamos a legitimidade absoluta da sua concepção de realidade e de todos os atos que dela decorrem.
Que tudo isso seja lembrado amanhã pela manhã, na hora da visita, quando tentarem conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais, reconheçam, os senhores só têm a superioridade da força.”

Antonin Artaud (Antoine Marie Joseph Artaud, Marselha, 4 de setembro de 1896 — Paris em 4 de março de 1948), poeta, ator, escritor, dramaturgo, roteirista e diretor de teatro, escreveu as “Cartas de Rodez” em 1943/46.

O anti-Édipo: introdução à uma vida não fascista – Michel Foucault

• Liberem a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante.
• Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.
• Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. [(199)]
• Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.

• Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.
• Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o
liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.
• Não se apaixonem pelo poder.

Michel Foucault escreveu ‘O anti-Édipo: uma introdução à uma vida não fascista’ como prefácio ao “Anti-Oedipus: Capitalism and Schizophrenia” de Gilles Deleuze e Félix Guattari, em 1977.

Tha Mo Ghaol Air Aird A’ Chuain – Julie Fowlis

Tha Mo Ghaol Air Aird A’ Chuain – Julie Fowlis
Julie_Fowlis Julie Fowlis (1979), cantora e multi-instrumentista escocesa que canta especialmente em gaélico.


Feasgar ciùin an tùs a’ Chèitein
[Em uma noite tranquila do início de maio]
Nuair bha ‘n ialtag anns na speuran
[Quando os morcegos estavam nos céus]
Chualaim rìbhinn òg ‘s i deurach
[Ouvi uma jovem donzela chorosa]
‘Seinn fo sgàil nan geugan uain’
[Cantando na sombra de ramos verdes]
Bha a’ ghrian ‘sa chuan gu sìoladh
[O sol estava se pondo sobre o mar]
‘S reult cha d’ èirich anns an iarmailt
[E ainda não havia estrelas enfeitando o céu]
Nuair a sheinn an òigh gu cianail
[Enquanto a jovem cantava tristemente]
“Tha mo ghaol air àird a’ chuain”
[“Meu amor está no alto-mar”]

Thòisich dealt na h-oidhch’ ri tùirling
[O orvalho da noite começou a cair]
‘S lùb am braon gu caoin na flùrain
[Cada flor submetendo-se docemente às gotículas]
Shèid a’ ghaoth ‘na h-oiteig chùbhraidh
[O vento soprando uma brisa perfumada]
Beatha ‘s ùrachd do gach cluan
[Trazendo vida e renovando os campos]
Ghleus an nighneag fonn a h-òrain
[A jovem cantou sua cantiga melodiosa]
Sèimh is ciùin mar dhriùchd an Òg-mhìos
[Calma e tranquila como o orvalho de junho]
‘S bha an t-sèisd seo ‘g èirigh ‘n còmhnaidh
[E este refrão era constantemente repetido:]
“Tha mo ghaol air àird a’ chuain”
[“Meu amor está no alto-mar”]

Chiar an latha is dheàrrs’ na reultan
[O dia escureceu e as estrelas brilharam]
Sheòl an rè measg neul nan speuran
[Acertando seu curso entre as nuvens]
Shuidh an òigh, bha ‘bròn ‘ga lèireadh
[A jovem sentou, sobrecarregada de tristezas]
‘S cha robh dèigh air tàmh no suain
[Seu canto não poderia ter sido mais suave]
Theann mi faisg air reult nan òg-bhean
[Eu me aproximei da donzela]
Sheinn mu ‘gaol air chuan ‘bha seòladh
[Cantando sobre seu amor singrando o mar]
O bu bhinn a caoidhrean brònach
[Oh doce é seu triste lamento]
“Tha mo ghaol air àird a’ chuain”
[“Meu amor está no alto-mar”]

Rinn an ceòl le deòin mo thàladh
[A música me atraiu]
Dlùth do rìbinn donn nam blàth-shul
[Para próximo da donzela de cabelos castanhos e olhos quentes]
‘S i ag ùrnaigh ris an Àrd-Rìgh
[E ela orou ao Rei dos Céus]
“Dìon mo ghràdh ‘th’ air àird a’ chuain”
[Proteja o meu amor no alto-mar]
Bha a cridh’ le gaol gu sgàineadh
[Seu coração estava se despedaçando de amor]
Nuair a ghlac mi fhèin air làimh i
[Quando eu a tomei pelas mãos]
“Siab do dheòir, do ghaol tha sàbhailt
[Enxugue seus olhos, seu amor está a salvo]
Thill mi slàn bhàrr àird a’ chuain”
[Ele voltou para você do alto-mar]
(versão minha a partir do inglês)

Conferência sobre Ética – Ludwig Wittgenstein

“Sempre que me deparo com isso, de repente vejo claramente, como se fosse em um flash, não somente que nenhuma descrição que eu possa imaginar seria adequada para descrever o que eu entendo por ‘valor absoluto’, a não ser que rejeitaria ab initio qualquer descrição significativa que alguém viesse sugerir por seu significado. Ou seja, eu vejo agora que essas expressões desprovidas de sentido não carecem de sentido por não terem sido encontradas ainda as expressões corretas, mas que é a sua falta de sentido o que constitui sua própria essência. Porque tudo o que eu pretendia com elas era, precisamente, ir além do mundo, que é o mesmo que ir além da linguagem significativa”.

“Meu único propósito – e eu acho que é o de todos aqueles que tentaram escrever ou falar sobre ética ou religião – é arremeter-se contra os limites da linguagem. Este arremeter-se contra as paredes de nossa jaula é perfeita e absolutamente sem esperança. A ética, na medida em que ela surge do desejo de dizer algo sobre o sentido último da vida, o bem absoluto, o valor absoluto, não pode ser uma ciência. O que diz a ética não acrescenta nada, em nenhum sentido, a nosso conhecimento. Mas isso é uma prova de uma tendência do espírito humano que eu, pessoalmente, não posso deixar de respeitar profundamente e por nada no mundo iria ridicularizar.” (versão minha do espanhol)

Ludwig Wittgenstein (Ludwig Joseph Johann Wittgenstein, Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951), filósofo austríaco, naturalizado britânico, pronunciou a ‘Conferência sobre ética’ em Cambridge, provavelmente em 1929 ou 1930. As idéias da conferência refletem, então, os pensamentos do Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1922. Como se sabe, seu pensamento modificou-se com as ‘Investigações Filosóficas’, as quais foram publicadas postumamente, em 1953.

Guantanamera – Compay Segundo

Compay Segundo (Máximo Francisco Repilado Muñoz, Siboney, Santiago de Cuba, 18 de novembro de 1907 – Havana, 13 de julho de 2003), cantor, violonista, clarinetista, tresero e compositor. Guantanamera é uma das mais célebres canções da música cubana, de autoria de José Martí e música de Josito Fernandez.


Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera
(repetido várias vezes)
Yo soy un hombre sincero
De donde crece la palma
Y antes de morir yo quiero
Echar mis versos del alma

Guantanamera…

No me pongan en lo oscuro
A morir como un traidor
Yo soy bueno y como bueno
Moriré de cara al sol

Guantanamera…

Con los pobres de la tierra
Quiero yo mi suerte echar
El arroyo de la sierra
Me complace más que el mar

Guantanamera…

Tiene el leopardo un abrigo
En su monte seco y pardo
Yo tengo más que el leopardo
Porque tengo un buen amigo.

Guantanamera, guajira guantanamera
Guantanamera, guajira guantanamera
(repetido várias vezes)

Outras inquisições – Jorge Luis Borges

“As ilusões do patriotismo não têm fim. (…) O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração, a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão.”

“Cada instante é autônomo. Nem a vingança, nem o perdão, nem as prisões, nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo, que sempre se referem a fatos futuros; ou seja, a fatos que não ocorrerão conosco, que somos o minucioso presente.” (…) “Eu entendo que é assim. As ruidosas catástrofes gerais – incêndios, guerras, epidemias – são uma só dor, ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos.”

“And yet, and yet… Negar a sucessão temporal, negar o eu, negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal; é terrível porque é irreversível e férreo. O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me despedaça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges.”

Jorge Luis Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986), escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino, escreveu ‘Outras Inquisições’ em 1952.

Em busca do cálice sagrado – Monty Python

‘Em busca do cálice sagrado’ trata da trajetória do Rei Arthur pela Grã-Bretanha à procura de cavaleiros para se aliarem a ele e defenderem Camelot dos ataques dos saxões. As piadas começam antes do início do filme, já nos créditos. Quando o filme, de fato, começa, o Rei Arthur e seu fiel escudeiro Patsy chegam a um castelo a cavalo. Mas em nenhum momento do filme há um cavalo de verdade: eles apenas fingem cavalgar batendo em côcos, imitando o som de uma cavalaria.” E por aí vai … Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle.

Monty Python

O grupo Monty Python, composto por Eric Idle, Terry Gilliam, Graham Chapman, John Cleese, Micheal Palin e Terry Jones, começou em 1969 com um programa na televisão britânica chamado Monty Python’s Flying Circus. E a partir daí, não pararam mais: vivaram shows, filmes, livros, jogos de computador, revolucionando o que até então compunha o gênero comédia. (texto extraído de ‘Ambrosia’)

Monty Python

O ocaso do pensamento – Emil Cioran

“A mediocridade da filosofia é explicada pelo fato de que somente é possível pensar quando se está com a temperatura baixa. Quando você domina a febre, então ordenará os seus pensamentos como se fossem bonecos, manejará as idéias como se fossem marionetes na corda, e o público não escapará dessa ilusão. Mas toda vez que você olhar para si mesmo e ver um incêndio ou naufrágio, quando a paisagem interior for uma suntuosa devastação das chamas se deslocando em direção ao horizonte dos mares, então dê livre curso aos seus pensamentos, colunas intoxicadas pela epilepsia do fogo interior.” (versão minha do espanhol)

Emil cioran

“Um homem que pratica em toda a sua vida a lucidez se converte em um clássico do desespero.” (…) “A verdade, como tudo o que implique escassez de ilusão, só aparece no seio de uma vitalidade comprometida. Os instintos, incapazes de alimentar a magia dos erros que banham a vida, preenchem seus sulcos com uma lucidez desastrosa. Começamos a ver o estado das coisas e então já não poderemos mais viver. Sem erros, a vida é um edifício deserto no qual vagamos como se fôssemos peripatéticos da tristeza.”  (versão  minha do espanhol)

Emil Cioran (Rășinari, 8 de abril de 1911 — Paris, 20 de junho de 1995), escritor e filósofo romeno radicado na França.

Emil cioran

Emil cioran