Construção – Chico Buarque

Chico Buarque (Francisco Buarque de Holanda, Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944) lançou a obra prima “Construção” em 1971.


Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague

Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

O homem da linha – Jos Steling

“O filme ‘O homem da Linha’ (De Wisselwachter, 1986, Jos Steling) inicia quando uma mulher desce de trem em uma estação errada. Na estação vive um homem solitário, preso à rotina de uma espécie de posto correio. Entre essa mulher e o homem solitário será aos poucos tecida uma estranha e primitiva forma de amor”.

Os diálogos pouco dizem a respeito de homem e mulher. Mas, no fundo, a questão é: porque ela não vai embora? A relação é insólita e improvável, ela urbana, moderna ele inocente, pueril, animalesco. Elenco: Jim van der Woude, Stéphane Excoffier, John Kraaykamp

A presença da mulher quebra o conjunto de regras do ‘Homem da Linha’ e ele perde a tradução de sua realidade imaginária e toma consciência de si enquanto indivíduo à medida que imerge nessa aventura simbólica. Como Lacan defendia, “nas trocas inter-subjetivas, é o terreno onde podemos negociar os parcos momentos da realidade”. Texto extraído de ‘Pachovski’, aqui razoavelmente modificado.

O som e a fúria – William Faulkner

ela sentou-se então ficou em pé a saia batia-se contra as pernas dela escorrendo água ela subiu a margem as roupas encharcadas sentou-se por que você não espreme as roupas quer pegar um resfriado
quero
a água gorgolejava em torno do banco de areia e por cima dele no escuro entre os salgueiros no trecho raso a água se enrugava como um pedaço de pano guardando um pouco de luz como a água sempre faz
ele já atravessou todos os oceanos do mundo todo

Quando a sombra dos caixilhos aparecia nas cortinas, eram entre sete e oito horas e aí eu estava novamente imerso no tempo, ouvindo o relógio. Foi de Avô e quando Pai o deu para mim ele disse eu lhe dou o mausoléu de toda esperança e desejo; é deveras apropriado que você o use para se apoderar do reducto absurdum de toda experiência humana, que será de tão pouca utilidade para suas necessidades individuais quanto o foi para ele e para o pai dele. Eu o dou a você não para que se lembre do tempo, mas para que você o esqueça aqui e ali por alguns momentos e não despenda todo seu fôlego tentando vencê-lo. Pois batalha alguma é vencida ele disse. Nem sequer se chega a travá-las. O campo de batalha revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão dos filósofos e dos tolos.

William Faulkner (William Cuthbert Faulkner, New Albany, 25 de setembro de 1897 — Byhalia, 6 de julho de 1962) escreveu “O Som e a Fúria” em 1929. É dividido em quatro partes e narrado por diferentes personagens com diferentes discursos narrativos.

Vivo per Lei – Andrea Bocelli

Andrea Bocelli (Lajatico, 22 de setembro de 1958) gravou “Vivo per Lei” em 1996.


[com Hélène Ségara]
[Andrea Bocelli:]
Vivo per lei da quando sai
la prima volta l`ho incontrata
non mi ricordo come ma
mi entrata dentro e c` restata
Vivo per lei perch mi fa
vibrare forte l`anima
vivo per lei e non un peso
[Hlne:]
Je vis pour elle depuis toujours
Qu`elle me dchire ou qu`elle soit tendre
Elle nous dessine aprs l`amour
Un arc-en-ciel dans notre chambre
Elle est musique et, certains jours,
Quand notre coeur se fait trop lourd,
Elle est la seule pouvoir nous porter secours
[Andrea:]
E una musa che ci invita
[Hlne:]
Elle vivra toujours en moi
[Andrea:]
atraverso un pianoforte
la morte lontana
io vivo per lei
[Hlne:]
Je vis pour elle jour aprs jour
Quand ses accords en moi se fondent
C`est ma plus belle histoire d`amour
[Andrea and Hlne:]
un pugno che non fa mai male
[Andrea:]
Vivo per lei lo so mi fa
girare di citt in citt
soffrire un po` ma almeno io vivo
[Hlne:]
Je serais perdu sans elle
[Andrea:]
Vivo per lei dentro gli hotels
[Hlne:]
Je suis triste et je l`appelle
[Andrea:]
Vivo per lei nel vortice
[Andrea and Hlne:]
Attraverso la mia voce
si espande e amore produce
[Andrea:]
Vivo per lei nient`altro ho
e quanti altri incontrero
che come me hanno scritto in viso
io vivo per lei
[ Andrea and Hlne:]
Io vivo per lei
[Andrea:]
sopra un palco o contro ad un muro
[Hlne:]
Elle me ressemble comme tu vois
[Andrea:]
anche in un domani duro
[Hlne:]
J`existe enfin, je sais pourquoi
[Andrea and Hlne:]
Ogni giorno una conquista
la protagonista sar sempre lei
[Andrea:]
Vivo per lei perch oramai
io non ho altra via d`uscita
perch la musica lo sai
da vero non l`ho mai tradita
[Hlne:]
Elle est musique, elle a des ailes
Elle m`a donn la cl du ciel
Qui m`ouvre enfin les portes du soleil
J`existe par elle
[Andrea:]
Vivo per lei la musica
[Hlne:]
J`existe pour elle
[Andrea:]
Vivo per lei unica
[Hlne:]
Elle est toi et moi
[Andrea and Hlne:]
Io vivo per lei
[Andrea:]
Io vivo
[Hlne:]
Per lei

Diamonds and rust – Joan Baez

Joan Baez (Joan Chandos Baez, Staten Island, 9 de janeiro de 1941), cantora norte-americana de música folk.


Well I’ll be damned
Here comes your ghost again
But that’s not unusual
It’s just that the moon is full
And you happened to call
And here I sit
Hand on the telephone
Hearing a voice I’d known
A couple of light years ago
Heading straight for a fall

As I remember your eyes
Were bluer than Robin’s eggs
My poetry was lousy you said
Where are you calling from?
A booth in the midwest
Ten years ago
I bought you some cufflinks
You brought me something
We both know what memories can bring
They bring diamonds and rust

Well you burst on the scene
Already a legend
The unwashed phenomenon
The original vagabond
You strayed into my arms
And there you stayed
Temporarily lost at sea
The Madonna was yours for free
Yes, the girl on the half-shell
Would keep you unharmed

Now I see you standing
With brown leaves falling around
And snow in your hair
Now you’re smiling out the window
Of that crummy hotel
Over Washington Square
Our breath comes out white clouds
Mingles and hangs in the air
Speaking strictly for me
We both could have died then and there

Now you’re telling me
You’re not nostalgic
Then give me another word for it
You who are so good with words
And at keeping things vague
Because I need some of that vagueness now
It’s all come back too clearly
Yes I loved you, dearly
And if you’re offering me diamonds and rust
I’ve already paid

Homo sacer – o poder soberano e a vida nua – Giorgio Agamben

“Por trás do longo processo antagonístico que leva ao reconhecimento dos direitos e das liberdades formais está, ainda uma vez, o corpo do homem sacro, com o seu duplo soberano, sua vida insacrificável e, porém, matável. Tomar consciência dessa aporia não significa desvalorizar as conquistas e as dificuldades da democracia, mas tentar de uma vez por todas compreender por que, justamente no instante em que parecia haver triunfado sobre seus adversários e atingido seu apogeu, ela se revelou inesperadamente incapaz de salvar de uma ruína sem precedentes aquela ‘zoé’ a cuja liberação e felicidade havia dedicado todos seus esforços. A decadência da democracia moderna e seu progressivo convergir com os estados totalitários nas sociedades pós-democráticas espetaculares (que começam a tornar-se evidentes já com Tocqueville e encontraram nas análises de Debord sua sanção final) têm, talvez, sua raiz nesta aporia que marca o seu início e a cinge em secreta cumplicidade com o seu inimigo mais aguerrido”.

Se denominamos forma-de-vida a este ser que é somente a sua nua existência, essa vida que é sua forma e que permanece inseparável desta, então veremos abrir-se um campo de pesquisa que jaz além daquele definido pela intersecção de política e filosofia, ciências médico-biológicas e jurisprudência. Mas antes será preciso verificar como, no interior das fronteiras destas disciplinas, algo como uma vida nua possa ter sido pensado, e de que modo, em seu desenvolvimento histórico, elas tenham acabado por chocar-se com um limite além do qual elas não podem prosseguir, a não ser sob o risco de uma catástrofe biopolítica sem precedentes.

Giorgio Agamben escreveu “Homo Sacer” em 1995.

Ed Wood – Tim Burton

“Tim Burton decidiu filmar ‘Ed Wood’ (1994) em preto-e-branco e o resultado dessa opção estética não apenas remete aos tempos nos quais os fatos transcorrem (os anos cinqüenta) como ao próprio cinema da primeira metade do século XX ─ e isso vale tanto para uma era dos filmes de terror da qual Bela Lugosi foi baluarte quanto às baixíssimas produções que Edward Wood Jr”.

“O filme trata quase como uma fábula episódios verídicos e próximos de nossa época. Mas Burton não debocha da condição negativa dos personagens, tanto que o riso é acompanhado por um olhar terno e carinhoso sobre essas figuras tão humanas e marginalizadas”. Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker.

“Edward Wood Jr. se mostra um visionário, pois não apenas a sua obra seria cultuadíssima num tempo futuro como também por antecipar décadas antes milhares de outros aspirantes a cineastas que do nada retiram os recursos para materializar seus projetos na tela, por mais trashs que estes se apresentam.” Este texto de Vlademir Lazo, aqui parcialmente modificado, encontra-se em Cineplayers.

Le quattro volte – Michelangelo Frammartino

Em ‘Le quattro volte’ “um velho pastor vive seus últimos dias em uma quieta vila medieval nas montanhas da Calabria, sul da Itália. Está doente e acredita que o seu melhor remédio está na poeira do chão da igreja, que ele coleta, mistura à sua água e bebe todos os dias. Um novo cabrito nasce, tenta dar seus primeiros passos e aos poucos se fortalece até poder acompanhar o rebanho. Ali perto, uma árvore magnífica chacoalha com a brisa da montanha e muda lentamente com as estações.”

“O natural e o aparentemente banal é filmado e é incrível como insignificâncias ganham magnitude, são tomadas longas em que a câmera observa o ritmo tedioso daquela vila. O homem que pastoreia suas cabras e que a cada dia definha mais e mais tem fé que a poeira da igreja de algum modo irá salvá-lo, pobre mortal, ninguém pode ir contra a natureza, eis o ciclo da vida”. O texto encontra-se em “Pitada de Cinema Cult”. Elenco: Giuseppe Fuda, Bruno Timpano, Nazareno Timpano

A longa caminhada – Nicolas Roeg

Walkabout (A longa caminhada) inicia com essas palavras: ‘Na Austrália, quando um aborígene completa 16 anos, ele é obrigado a vagar pela terra. Durante meses deve viver dela. Dormir sobre ela. Comer de seus frutos e de sua carne. Sobreviver, ainda que para isso tenha que matar outras criaturas. Os aborígenes chamam isso de Walkabout. Esta é a história de um Walkabout.’”

“Dois mundos se cruzam: o civilizado e o estado de natureza, em um ambiente sem dono. Quando as convenções são minimizadas para dar lugar à necessidade de sobreviver, os seres humanos se assemelham – mas os preconceitos enraizados no nosso subconsciente continuam lá.” Texto, aqui modificado, em ‘Análise indiscreta’. Elenco: Jenny Agutter, David Gulpilil, Luc Roeg

O ladrão de cadáveres – Wallace Fox

“Bela Lugosi, uma década depois do sucesso estrondoso de Drácula (1931), assinou um longo contrato com o estúdio Monogram, onde realizou uma série de pequenos clássicos de horror de baixo orçamento. The Corpse Vanishes (O ladrão de cadáveres, 1942) foi seu quarto filme para o estúdio”.

O ladrão de cadáveres

“Contracena com o anão Angelo Rossito, formando uma dupla sinistra, sempre a espreita das noivas, a bordo do carro funerário. Um cult movie de horror na melhor tradição das exageradas produções do período.” Texto encontrado em ‘Space Monster’. Elenco: Bela Lugosi, Luana Walters, Tristram Coffin. Em domínio público.

O ladrão de cadáveres