O processo – Franz Kafka

“Alguém devia ter caluniado Josef K., visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal.”

“Não pode sair; o senhor está preso.
Assim parece, disse K. E por que razão?
Não é da nossa incumbência darmos-lhe explicações. Volte para o seu quarto e aguarde.”

“São, pois, os senhores que me foram destinados? perguntou.
Os homens corroboraram com um movimento de cabeça e cada um deles, de chapéu na mão, apontou para o outro. K. não pôde deixar de dizer de si para si que esperara uma visita diferente. Aproximou-se da janela e olhou mais uma vez para a rua escura. Eram raras as janelas dos prédios fronteiros em que se via luz: em muitas, as cortinas já haviam sido descidas. Numa janela ainda com ‘luz brincavam algumas crianças atrás duma grade e estendiam umas para as outras as suas mãozinhas, pois não conseguiam sair do lugar onde as tinham posto.”

“Desse modo depressa saíram da cidade, que naquela banda quase sem transição se ligava ao campo. Perto de uma casa, que pelo aspecto ainda pertencia à cidade, havia uma pequena pedreira abandonada e erma. Foi ali que os homens pararam, quer por ser esse o objectivo de antemão escolhido, quer por estarem demasiado extenuados para continuarem a correr. Deixaram de perseguir K. que, calado, os esperava, tiraram o chapéu e enxugaram o suor da testa, ao mesmo tempo que lançavam os olhos pela pedreira. A luz da Lua, tranquila e natural como nenhuma outra, espalhava-se por toda a parte. Depois de terem trocado algumas cortesias em que procuraram determinar quem tinha de executar a próxima tarefa, parecia que não haviam definido a missão de cada um, um deles aproximou-se de K. e tirou-lhe o casaco, o colete e a camisa. K. arrepiou-se involuntariamente; o homem, então, deu-lhe uma pequena pancada nas costas para o tranquilizar. Depois, dobrou cuidadosamente as roupas como se fossem coisas que ainda viessem a ser usadas, embora num futuro um tanto remoto. Para não expor K., imóvel, ao ar fresco da noite, pegou-lhe por debaixo do braço e andou com ele um bocado para cá e para lá, enquanto o outro procurava na pedreira qualquer lugar adequado. Logo que o encontrou, fez um sinal ao companheiro, que levou K. para o sítio escolhido. Este situava-se perto dum ressalto da parede junto da qual havia uma pedra que lhe fora arrancada. Os homens sentaram K. no chão, encostaram-no à pedra e puseram-lhe a cabeça em cima. Apesar de todos os seus esforços e de toda a condescendência de que K. dava provas, a sua posição mantinha-se forçada e inverosímil. Por esse motivo, um dos homens pediu ao outro que o deixasse tratar sozinho de arranjar uma posição para K., mas nem assim se verificou qualquer melhoria. Acabaram então por deixá-lo ficar numa postura que nem sequer era a melhor de quantas já haviam arranjado. Depois, um deles abriu a sobrecasaca e tirou duma bainha, que pendia dum cinto colocado à volta do colete, uma faca de magarefe, comprida e estreita, com dois gumes, levantou-a e observou-lhe o corte à luz. Começaram de novo as repugnantes cortesias; um dava, por cima de K., a faca ao outro, que a restituía do mesmo modo. Agora K. sabia exatamente que o seu dever teria sido agarrar a faca quando ela passasse por cima de si e espetá-la no seu próprio corpo. Mas não o fez; em vez disso, voltou o pescoço ainda livre e olhou em redor. Não podia satisfazer inteiramente, pois não era capaz de aliviar as autoridades de todo o trabalho; a responsabilidade deste último erro tinha-a aquele que o privara do resto das forças que para isso lhe eram necessárias. Reparou, então, no último andar da casa que estava situada à beira da pedreira. Lá no alto, os dois batentes duma janela escancararam-se como um jorro de luz; um ser humano, a distância e a altura faziam-no fraco e magro, surgiu à janela, curvou-se bruscamente para fora e atirou os braços ainda mais para a frente. Quem era? Um amigo? Uma boa alma? Um participante? Alguém que queria ajudar? Era um só? Eram todos? Havia ainda auxílio? Havia ainda objecções por levantar? Havia-as com certeza. A lógica é na verdade inabalável, mas não resiste a um homem que quer viver. Onde estava o juiz que ele nunca tinha visto? Onde estava o alto tribunal que ele nunca alcançara? Levantou a mão e estendeu os dedos.
Mas um dos homens pôs-lhe as mãos no pescoço, enquanto o outro lhe espetava profundamente a faca no coração e aí a rodava duas vezes. Moribundo, K. viu ainda os dois homens muito perto do seu rosto, com as faces quase coladas, a observarem o desfecho.
Como um cão! disse. Era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe.”

Franz Kafka, 1883-1924, escreveu O processo por volta de 1920.

Franz Kafka
O processo